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Breve História da Anatomia Patológica:  João de Oliveira Campos “O Anátomo-Patologista esquecido”

Anexamos um documento da autoria de João Fortuna Campos, sobre a história da Anatomia Patológica, as suas origens e alguns dos seus pioneiros, nomeadamente João de Oliveira Campos.

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Breve história da Anatomia Patológica

No site da História da Medicina da Universidade da Beira Interior poderão ter acesso às Centúrias de Amato Lusitano, comunicações sobre Ribeiro Sanches e aos Cadernos de Cultura cujos organizadores são António Salvado, António Lourenço Marques e Maria Adelaide Salvado

“Um gesto, um ato, uma atitude, uma relação e uma candidatura como fundamentos de uma profissão”
(a propósito de algumas importantes mensagens que podemos percecionar na atenta observação de alguns quadros e a sua possível relação com o legado à Humanidade por parte de membros da comunidade sefardita da diáspora lusa)

Artigo previamente publicado juntamente com um editorial de Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, em:

https://portalrevistas.ucb.br/index.php/rmsbr/issue/view/514/showToc

PDF do artigo e editorial:
PDF_Artigo publicação original
Editorial_Bastonario da OM

Autor: José M. D. Poças
(Especialista em Medicina Interna e Doenças infeciosas, Chefe de Serviço da Carreira Médica Hospitalar e Diretor de Serviço de um Centro Hospitalar Público Português)

Resumo
(“É muito mais importante conhecer que doente é que tem a doença, do que saber a doença que o doente tem”, William Osler, médico canadiano, 1849-1919)

A dicotomia entre a tecnologia e o humanismo não deve supor a anulação de qualquer uma destas duas realidades, não só por razões de natureza ética, clínica e de gestão, mas também por razões pedagógicas relacionadas com as necessidades formativas das novas gerações de médicos. Este é o desafio consequente à reflexão que pretendo fazer neste artigo, na suposição de que as virtualidades da semiologia clínica, do respeito pela ética e da empatia na prática dos cuidados de saúde não são apenas do passado, mas fazem antes parte indissociável do ato médico e da relação médico-doente do presente, devendo assim permanecer para todo o sempre, porque o exercício da atividade médica tem como único verdadeiro protagonista o Ser Humano na sua globalidade e diversidade (1-3).
Gerd Leonard, um famoso e reconhecido futurólogo afirmou num dos seus livros o seguinte: “… o meu objetivo … é ampliar e acelerar o debate sobre como garantir que orientamos, aproveitamos e controlamos os desenvolvimentos da ciência e da tecnologia para que cumpram o seu primeiro objetivo, ou seja, servir a Humanidade e promover a prosperidade humana… A tecnologia não tem qualquer ética, pelo que a sua intrusão iminente na vida privada e nos processos biológicos deve ser negociada como uma prioridade a nível cívico … Como podemos proteger as mais profundas formas de felicidade como a empatia, a compaixão ou a consciência…?”.
Este é pois um contributo com um forte cunho pessoal para esta mesma causa que pretendo deixar à consideração dos meus leitores, sejam eles profissionais de saúde, doentes ou meros cidadãos anónimos. (4).

Nota Introdutória
(“O bom médico trata a doença do doente, enquanto o grande mestre da medicina trata o doente que tem a doença”, William Osler, médico canadiano, 1849-1919)

De um recente repto lançado por um colega e amigo brasileiro para escrever algo que tivesse por vontade transmitir por escrito, sob a forma de um artigo, para uma Revista Médica do nosso País Irmão que tantas vezes visitei com imenso gosto e no qual tenho muitos familiares, amigos e colegas de profissão, começou por nascer no meu pensamento algo que se afigurou ser muito vago de início, mas que acabou depois por ir ganhando uma forma mais inteligível: tentar relacionar alguns factos e certos conceitos aparentemente divorciados entre si, sobre os quais me tenho vindo a interessar de modo algo anárquico e ao sabor de momentâneos impulsos (consultar o sítio eletrónico josepocas.com, subordinado ao lema de “Medicina: Cultura, Ciência e Humanização”) (5), mas que, no conjunto, acabaram por constituir um corpo de ideias que espero seja reconhecido por outrem como minimamente coerente e sob uma perspetiva algo inédita. Este mero exercício especulativo acabou assim por permitir conjeturar algo que, embora plausível, está ainda envolto em polémica e certamente longe de já estar plenamente demonstrado, constituindo antes um esboço de uma tese que tem de ser mais aprofundada, até que possa ser considerada efetivamente credível…
A génese deste artigo e o modo como acabou por resultar do simples fluir de um certo encadeamento de pensamentos que estavam latentes no meu espírito, acabou por ter, pois, algumas semelhanças com o que Maria Gainza, uma jornalista especializada em pintura citou no seu primeiro e muito interessante romance recentemente traduzido para português, onde se mesclam de modo pouco vulgar, dados autobiográficos com os de alguns dos maiores vultos da pintura de diversos países (incluindo da sua amada terra natal também): “… não sei porque estou a contar isto agora, mas suponho que é sempre assim: escrevemos uma coisa para contar outra” (6).

O âmago da questão
(“A doença é a escuridão da vida… A compaixão é um sentimento instável. Necessita de se transformar em ação, ou então fenece”, Susan Sontag, escritora e ensaísta norte-americana, 1933-2004, falecida vítima de leucemia aguda, in “A doença como metáfora” e “A SIDA e as suas metáforas” de 1977 e de 1987)

Um gesto: A palpação do pulso. Uma atitude: A leitura da expressão facial. Um ato: O ato médico. Uma relação: A relação médico-doente. Uma candidatura: A da relação médico-doente a património imaterial da Humanidade. Uma profissão: A de Médico.
Comecemos pois pelo início deste intricado novelo de conceitos, para depois conseguir desenvolver melhor um coerente fio condutor de raciocínio, como convém à sua almejada descodificação. Se há gesto que qualquer cidadão identifica de imediato como sendo capaz de corporizar a atividade clínica é, sem sombra de dúvida, a palpação do pulso. Tal gesto, retratado desde os primórdios da Medicina na civilização andaluza e ao longo dos séculos seguintes em diferentes civilizações e culturas (Fig. 1) (7-8), é fundamental não apenas para fornecer certos dados semiológicos importantíssimos para um diagnóstico diferencial mais assertivo, mas também porque permite uma aproximação física com o doente que é capaz, por si só, de atenuar o natural receio deste perante a perspetiva de poder vir a ouvir da voz do seu médico a proclamação solene da sentença de que padece afinal de uma enfermidade com um prognóstico reservado e, logo, instintivamente percecionado, a priori, como uma verdadeira antecipação da própria morte, como acontece em muitas circunstâncias e não tão raramente como se poderia pensar.


Fig.1- (“A palpação do pulso” de, respetivamente, sec. XVII, 1780, 1830 e 1890, de Canon de Avicena (Bucara, Síria), Winthrop Chandler 1737-1790, Connecticut, EUA, Livro de Medicina Ayurvédica (Índia) e Zhou Pei-Chun, 1880-1910, China)

Reação que, embora frequentemente desprovida de qualquer fundamento científico, é antes fruto da interiorização de um atávico espírito fatalista baseado na ignorância, nas crenças de índole mística, ou na mera extrapolação infundada de dolorosas experiências anteriormente vivenciadas. Serve ainda para esbater a tradicional posição de aparente subalternização do doente face ao seu médico, pois, presentemente, é impensável este último dispensar arrogantemente a partilha de opiniões com o primeiro, no exercício de um saudável princípio, segundo o qual, o êxito da estratégia a empreender, quer no que concerne ao diagnóstico, quer ao tratamento, será proporcional ao grau de colaboração mútua (9-10).
Desde que esse gesto seja espontâneo, poderá ser imediatamente sentido pelo doente como uma forma de calorosa linguagem gestual que carrega, em simultâneo, uma mensagem de competência profissional, de disponibilidade solidária e de afetividade relacional, podendo assim desencadear uma expressão facial que deve ser corretamente interpretada e contextualizada pelo médico, na qual a exteriorização de todo um importante conjunto de sentimentos fica muitas vezes espelhada de forma fugaz, embora bastante significativa, na fácies do doente (11-16).
Como é bem sabido por etologistas, antropólogos, psicólogos, psiquiatras e pediatras, se um recém-nascido for criado sem o terno estímulo tátil da sua mãe, tal como se provou previamente em símios e mesmo noutro tipo de animais, o seu adequado desenvolvimento psicológico fica irreversivelmente comprometido, com graves implicações posteriores para a sua própria saúde a prazo (17-18).
De modo similar, também os imunologistas conseguiram demonstrar que, se o sistema imunológico não for estimulado pelo contacto com o microbioma humano e com os microorganismos do meio ambiente que o envolve (19-20), bem como se for sujeito a sucessivos ciclos (indesejáveis) de antibioterapia (21-24), surge neste último caso uma disbiose intestinal (25) que facilita a ocorrência de doenças inflamatórias (como as autoimunes) (26), alérgicas (27), e mesmo outras (como a obesidade), bem como a nefasta emergência das temíveis infeções oportunistas ou por microrganismos multirresistentes (28-33), que serão amplamente facilitadas, pois todos estes estímulos são verdadeiramente imprescindíveis à preservação da saúde e ao desenvolvimento em equilíbrio, quer do ponto de vista psicológico, quer orgânico, de todo e qualquer Ser Humano.
Acerca da indispensabilidade das relações humanas para a compreensão do Homem e da Humanidade, citaria apenas, a título de exemplo, pelas ilações atinentes que têm a ver indiretamente com toda esta temática, os incontornáveis filmes, “Eduardo, mãos de tesoura” de Tim Burton, “O Homem elefante” de David Lynch ou “Os Palhaços” de Frederico Fellini porque, como se pode constatar a seguir, sou da firme opinião de que o conhecimento de todas as formas de expressão artística pode ajudar, e muito, a formação de um clínico. Talvez por isso, seja tão comum utilizar-se a expressão “arte médica” em paralelo com a de “ciência médica” (34-37), e existam tantos médicos cultores de diversas formas artísticas, sobretudo da literatura (38) e da pintura (39-40) (na realidade portuguesa).
Estas considerações apenas põem em evidência a importância e a perene atualidade de toda uma milenar tradição dos nossos grandes Mestres (51-64) que vai de Hipócrates (o Pai da Medicina) a William Osler (o fundador e expoente máximo da Medicina Interna) e que se torna vital que seja lembrada a cada instante nos conturbados dias de hoje, e, até mesmo, reabilitada, dado ser o fundamento do nosso tão particular mister. Mas também porque, para além disso, deve corresponder ainda a uma necessidade vital de realização profissional sentida por parte dos clínicos baseada na sua capacidade de poder contribuir decisivamente para atenuar o sofrimento do seu semelhante, bem como ao correspondente colmatar de um mais do que nefasto vazio afetivo profundamente interiorizado e expresso pelos doentes sob múltiplas formas mais ou menos explícitas.
Se a capacidade de ter sentimentos e de exprimir emoções é um atributo perfeitamente identitário da espécie humana, como o demonstrou o neurocientista português António Damásio (55-57), então isso deveria, por maioria de razão, assumir ainda maior relevância no contexto da relação médico-doente e na realização do ato médico, pressupostos que se impõe assim serem reconhecidos e divulgados (58-60).
Vivemos atualmente num mundo dual e cheio de intrínsecas contradições, no qual a utilização (muitas vezes imprescindível, deve, contudo, enfatizar-se) dos meios tecnológicos de diagnóstico e de terapêutica é de uma magnitude progressivamente crescente. O problema coloca-se porque esta realidade deveria, contudo, coexistir com uma preocupação constante pelo reforço das atitudes capazes de humanizarem a prestação dos cuidados de saúde, não só porque isso é imprescindível para o adequado aprofundamento daquela tão singular relação, mas também, porque é uma das maneiras mais eficazes de se racionalizarem os custos. Na verdade, os reconhecidos gastos excessivos com a utilização generalizada dos recursos disponíveis (e necessários!), que são cada vez mais onerosos para os cidadãos e para a sociedade, e também por isso mesmo com um grau de acessibilidade cada vez mais condicionado, contribuem para minar indesejavelmente e de forma irreversível a sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde de todos os países desta pequena-grande aldeia, cada vez mais globalizada, onde todos nós habitamos (61-69), sendo ainda um dos fatores mais decisivos no diz respeito ao nefasto incremento da denominada medicina defensiva (70) e da promoção de inaceitáveis desigualdades (71).
O médico será, assim, como o afirmou lapidarmente o médico, psicanalista e bioquímico inglês de origem magiar, Michael Balint ( ), um verdadeiro (e um dos mais eficazes) medicamento(s) em si mesmo. Tal é o princípio básico em que se fundamenta a verdadeira Medicina Clinica (73) tal como ela deveria ser sempre entendida e praticada, sendo a recente denominação de Medicina Narrativa (74), ou as expressões anglo-saxónicas de “slow medicine” ou de “two-persons-medicine” apenas diferentes epítetos que pretendem promover a reflexão que se impõe fazer, na qual se tem de passar a considerar a empatia (75) e a ética (76) como as bases sólidas onde se deve estruturar todo o complexo edifício da prática das atividades relativas ao setor da saúde.
Daí que, pelo facto de os médicos sentirem que todo este intemporal e precioso capital de investimento intergeracional está ameaçado por muitas das políticas que se estão cada vez mais a implantar e a generalizar de forma sub-reptícia, ousaram propor a sua elevação à condição de Património Imaterial da Humanidade, porque a verdadeira Medicina não pode jamais ficar divorciada de todo esse valioso conjunto de valores civilizacionais. O Homem biónico (76-77), ou seja, aquele que até pode ser originado através da manipulação genética em laboratório ou que pode ter parte do seu corpo composto por um conjunto de dispositivos protésicos que conseguem suprir minimamente as suas mais diversas funções fisiológicas vitais por longos anos, se um dia vier mesmo a existir, atrever-me-ia a antecipar que jamais deixará de possuir alma. E, portanto, será sempre sensível ao prazer e à dor, continuará a ser capaz de se condoer com o próprio infortúnio tal como com o alheio, bem como de ser solidário para com o seu semelhante, não desistirá de lutar por ideais e de se revoltar a cada passo contra a opressão e as injustiças, essencialmente impelido pela sua consciência cívica, tal como se pode ler no incontornável e visionário romance “O admirável mundo novo” do grande escritor britânico Aldous Huxley, no qual o autor profetizou magistralmente tal hipotético cenário.
Hillel Barude, um estimado filósofo da Medicina afirmou de uma forma inequivocamente hipocrática que “… a finalidade da moderna Medicina deve idealmente combinar tanto a preocupação com a cura como com o cuidar… compreendendo que isto significa tratar o sofrimento como um objetivo em si mesmo, postura que implica reconhecer que a prática médica deve pois tentar superar os próprios objetivos regulamentares que constam nos códigos de ética e na estrita realização profissional individual”. Objetivos sem sombra de dúvida exigentes, e na minha perspetiva não totalmente impossíveis de alcançar. Mas, certamente, de modo algum, no contexto das políticas para o setor que se têm vindo a implementar de forma tão manifestamente generalizada!!!

O contributo da pintura
(“… a pintura pode, também, representar a enfermidade, desde o mais íntimo do ser humano, expondo inclusive as razões do sofrimento através das expressões faciais, dos gestos, dos comportamentos, e da relação com a sociedade, transmitindo um olhar transcendente… em definitivo, a pintura engloba o Ser Humano, descreve-o, investiga-o, diagnostica-o, com a ideia de o embelezar e de lhe oferecer um meio de cura, de forma algo idêntica à Medicina…”, Pilar Seco, Médica Internista do Hospital Universitário de La Paz, Madrid, Espanha) (78

Saibamos contemplar, pois, com olhos verdadeiramente capazes de “ver claramente visto”, como aludiu o nosso grande poeta Luís Vaz de Camões, algumas das mais significativas e intemporais obras pictóricas do património coletivo de toda a Humanidade. Embora os exemplos sejam muitos e diversificados (ver a conferência “Medicina e Pintura” em josepocas.com), começaria por destacar os retratos verdadeiramente pungentes relativos aos diversos estados de alma, legados pelo inimitável pintor norueguês Edvard Munch (fig. 2), em cuja patobiografia se refere que padeceria eventualmente de doença psiquiátrica (Síndroma depressivo? Síndrome psicótico?), que esteve gravemente doente com a denominada “gripe espanhola” e com uma hemorragia intraocular, admitindo-se ainda que tenha tido hábitos de consumo excessivo de bebidas alcoólicas e mesmo de substâncias alucinogénias, para além de possivelmente ter também contraído, algures, o sempre temido mal luético (79-82). Razão, talvez, para se ter sentido impelido, subconscientemente, a pintar o quadro (Fig. 3) que representa, de forma comovente, o drama de uma criança de tenra idade completamente desfigurada ao colo de sua mãe, vítima da transmissão inocente do terrível treponema pallidum proveniente da sua própria progenitora, em plena era pré-antibiótica.

Fig. 2- (Da esquerda para a direita e de cima para baixo, respetivamente, “Melancolia” (x3), “Ciúme” (x2), “Separação”, “Desespero” (x2), “O Grito” e “Ansiedade”, entre 1892 – 1907, de Edvard Munch, 1863-1944, Adalsbruk, Noruega)


Fig. 3- (“Herança” de 1908, por Edvard Munch, 1883-1944, Adalsbruk, Noruega)

Era filho de um médico e perdeu, ainda jovem, tanto a mãe como uma das irmãs, ambas vítimas da peste branca que então grassava ameaçadoramente por toda a Europa, pelo que todo este trágico percurso de vida foi abundante e eloquentemente retratado em diversas obras da sua autoria, de entre as quais se destacam alguns autorretratos, as cenas de velórios, ou as que fez para retratar os profissionais de saúde que o trataram ao longo da vida, no decurso dos sucessivos internamentos a que se submeteu (Figs. 4, 5, 6 e 7).


Fig.4- (“Auto-Retratos” de 1875, 1902 e 1903, “Com o esqueleto do braço”, “ Na sala de operações” e “No inferno” por Edvard Munch, 1863-1944, Adalsbruk, Noruega)


Fig.5- (“A morte” de 1893-1897 por Edvard Munch, 1863-1944, Adalsbruk, Noruega)


Fig. 6- (“As enfermeiras” e “A enfermeira” de 1905 e 1908, por Edvard Munch, 1963-1944, Adalsbruk, Noruega)


Fig. 7- (“Doutor Max Linde” e “Doutor Daniel Jacobson” de 1897 e 1908, por Edvard Munch, 1863-1944, Adalsbruk, Noruega)

O mesmo poderíamos concluir da riquíssima iconografia legada por outros grandes artistas que, para além de idêntico génio criativo, tiveram também vidas relativamente curtas e eivadas de enorme sofrimento, tais como Frida Kahlo (83-88), Vincent van Gogh (89-95), e muitos outros com complexas e polémicas patobiografias que ainda hoje alimentam debates mais ou menos apaixonados entre os seus muitos cultores (96-97).
Também muitos ensinamentos poderemos colher do abundante e riquíssimo espólio pictórico legado pela apelidada “geração de ouro” dos denominados “Países Baixos” (98-99), que estiveram na época alguns anos sob o jugo da coroa espanhola, tal como, de resto, o meu próprio país. Muitos das seus geniais criadores artísticos (100) legaram-nos para a posteridade notáveis “retratos” da vida mundana, impregnados de tocante simbolismo, onde os temas relativos à saúde assumiram curiosamente notável destaque, tal como nos casos referidos nas figuras que se anexam, ou ainda nos que constam do Quadro1, a maioria dos quais, como se constata, originários daquelas referidas paragens e que deixaram registados vários quadros sobre o motivo da “Visita do médico” a casa do seu doente, nos quais este está frequentemente a fazer a palpação do pulso do paciente e a contemplar o seu fácies ou o dos seus circundantes, ou então, em profunda introspeção, como o faria alguns anos depois, Pablo Picasso, num dos seus quadros mais icónicos no início da sua fulgurante e atribulada carreira artística (Figs. 8 e 9).

Joos Craesbeeck, 1606-1660, flamengo; Adriaen van Ostade, 1610-1685, holandês; David Teniers, 1610-1690, flamengo; Gerrit Dou, 1613-1675, holandês; Gerard Borch, 1617-1681, holandês; Quiringh Gerritsz, 1620-1668, holandês; Cornelis de Man, 1621-1706, holandês; Gabriel Metsu, 1629-1667, holandês; Jacob Ochtervelt, 1634-1682; holandês, Franz van Mieris, 1635-1747, holandês; Michiel van Musscher, 1643-1705, holandês; Godfried Schalcken, 1643-1706, holandês; Matthijs Naiveu, 1647-1728, holandês; Egbert van Heemskerk, 1676-1744, holandês; Focke Stapert, 1685-1735, holandês; Elisabeth Wassenbergh, 1729-1813. Holandês; Willem Laquy, 1738-1798, alemão; Karl Hubner, 1814-1879, alemão; Jules Leonard, 1827-1897, francês; Emma Brownlow, 1852-1867, inglesa; Sandor Bihari, 1855-1906, húngaro; e Arthur Miles, sec. XIX, inglês.

Quadro 1


Fig. 8- (“Visita do Médico”, entre 1658 a 1670, por Jan Steen, 1625-1679, Leiden)


Fig. 9- (“Ciência e Caridade” de 1897, por Pablo Picasso, 1881-1973, Málaga)

O expoente máximo daquela grande gesta de notáveis artistas atrás referidos foi, sem sombra de dúvida, um outro holandês, Rembrandt van Rijn (mestre de muitos dos pintores referidos nos dois primeiros quadros deste artigo), que nos deixou muitas obras de inultrapassável qualidade estética, onde a beleza do contraste entre os sombreados de tonalidade escura e a mágica luminosidade dos dourados jamais foi ultrapassada por qualquer um dos seus pares. Neles preponderam, de entre outros (101-103), os famosos autoretratos, os temas bíblicos (sobretudo relativos ao Velho Testamento) e a temática alusiva à atividade médica, de entre os quais destacaria os dois magníficos estudos anatómicos (um deles infelizmente parcialmente destruído num incêndio). Também Rembrandt, à semelhança de Edvard Munch, não ficou indiferente aos estados de alma, como se comprova ao observarmos, entre outros, o conjunto de quadros conhecidos sob a denominação comum de “Os sentidos” (Figs 10, 11 e 12).


Fig. 10- (“Auto-Retratos” de, respetivamente, 1628, 1552 e 1669, por Rembrandt von Rijn, 1606-1669, Leiden)


Fig. 11- (“As aulas de anatomia dos Doutores Tulp e Joan Deyman” de 1632 e 1656, por Rembrandt von Rijn, 1606-1669, Leiden)


Fig. 12- (“Os sentidos” de 1625 por Rembrandt von Rijn, 1606-1669, Leiden)

Robert Pope (100), um artista plástico americano que faleceu muito precocemente, vítima de um Linfoma de Hodgkin e que por isso criou uma Fundação que ainda hoje existe (sob o lema, “Incutir esperança e promover a cura através da arte”), pôde beneficiar largamente do incondicional apoio psicológico e afetivo por parte da sua família e dos seus amigos nos momentos mais difíceis do penoso curso daquela doença, o que ficou bem espelhado em vários quadros cheios de significado simbólico (Fig. 13), deixou dito o seguinte: “… a arte é uma forma poderosa de medicina preventiva. Contemplar uma tela é como ir caminhando a abrir uma série infinita de sucessivas portas, o que conduz à vivência de uma profunda e enriquecedora experiência. Esta jornada estimula-nos o pensamento, a alma e os sentimentos. Faz-nos sentir ainda mais vivos. Em suma, esta sensação de índole estética torna-nos mais saudáveis e incorporando-se em nós próprios, engrandece o nosso eu”.


Fig. 13- (“Enfermidade familiar”, “O abraço” e “As visitas”, sec. XX, Robert Pope, 1956-1992)

Esta é uma mensagem pungente que não pode deixar de motivar a reflexão profunda por parte de todos acerca das múltiplas facetas do sofrimento humano e da forma de o minorar, o que implica o reconhecimento da validade da adoção de estratégias que podem ir muito para além da terapêutica estritamente farmacológica ou da utilização exclusiva de meios tecnológicos. A expressão artística ou a sua simples contemplação pode, pois, assumir um papel determinante em certos contextos e para certas pessoas, cabendo ao médico ter a intuição de o percecionar e valorizar corretamente em devido tempo, dado o seu inegável potencial terapêutico (101-106), como o demonstrou inequivocamente, entre muitos outros, o famoso neuropsiquiatra, Oliver Sacks (107).

Uma tese ousada (…!?): O contributo dos criptojudeus da diáspora portuguesa
(“A Medicina moderna é a síntese entre dois grandes movimentos criativos da civilização liderados pelos Gregos e pelos Judeus. De uns, herdamos a noção da importância de cuidarmos do amor ao nosso semelhante, dos outros, a valorização do espírito sobre o corpo”, William Osler, médico canadiano, 1849-1919 numa conferência realizada em 1914 na Sociedade Judaica Londrina de História)

Rembrandt van Rijn habitou (tal como outros pintores seus contemporâneos), durante vários anos, o bairro judeu de Amesterdão (108-110), local onde se fixou uma parte significativa dos ditos cristãos-novos ou marranos, muitos deles retratados pelo seu próprio pincel. Aqueles haviam fugido aos pseudojulgamentos e torturas atrozes perpetradas por ordem do ignóbil Tribunal da Santa Inquisição que tinha sido implantado na Península Ibérica (primeiro em Espanha e, depois, em Portugal), o que justifica a vinda para o nosso país, de início, de muitos ilustres representantes daquela importantíssima comunidade. Alguns haveriam, posteriormente, aquando da transitória ocupação do nordeste brasileiro pelos holandeses, de fundar a primeira cidade intitulada de “Nova Amesterdão” (Natal) e, depois da reconquista desse mesmo território pelas tropas portuguesas, ao fugirem em busca de nova e mais segura terra de exílio, acabaram por ajudar a edificar outra cidade, denominada desta vez de “New Amsterdam” (futura Nova Iorque, na ilha de Manhattan, junto à foz do Rio Hudson, nos Estados Unidos da América do Norte) (111-132). Alguns deles, pelo caminho, deixaram também um decisivo rasto da sua passagem e presença nas Caraíbas, designadamente na ilha de Curaçau (Coração, em português) (133). Outras comunidades igualmente de grande importância se fixaram no Norte de África (designadamente em Marrocos), nas terras do Levante (sob o jugo do sultanato otomano) (134), nalguns outros países árabes do Médio Oriente, na Palestina (especialmente em Jerusalém), em Itália (135-136), na Alemanha (137), na Bélgica (sobretudo em Antuérpia, Flandres, onde Portugal chegou a ter uma feitoria no sec. XVI), em Inglaterra (138) e numa grande diversidade de outros países, para além de Amesterdão e de outras cidades dos Países Baixos.
Poder-se-á, então, especular, até que ponto esse grande génio da pintura universal terá sido influenciado pelo pensamento daquela próspera comunidade circundante, conhecida por Mokum (139), a mesma que construiu mais tarde um dos mais importantes templos judaicos da época (denominado de Sinagoga Portuguesa ou Esnoga de Amesterdão), que foi felizmente poupada da suposta inevitável destruição por parte da hedionda e voraz besta nazi. O seu médico pessoal, foi Ephraim Bueno ou Martim Alvarez, 1599-1665 (Fig. 14) (140), natural de Castelo Rodrigo e a principal figura da intelectualidade dessa mesma comunidade (e uma das maiores figuras da filosofia do seu tempo), com quem se admite que poderá ter tido algum convívio, foi Baruch (Beneditus) Espinosa, 1632-1677, filho de um comerciante da Vidigueira que se exilou primeiramente em França, antes de chegar a Amesterdão (denominada, na altura, de Nova Jerusalém), onde esse filósofo acabou por vir a nascer (56). Também, segundo alguns autores, se questiona se Rembrandt não seria também, ele próprio, de origem judaica. Do que ninguém tem dúvida, e tal é muito fácil de constatar, é que abordou abundantemente uma grande diversidade de temas de índole médica, havendo ainda quem admita que padecesse de cataratas na fase final da sua vida e que isso teria contribuído de modo decisivo para ter tido lógicas dificuldades acrescidas em poder desenvolver o seu génio criativo.


Fig. 14- “Ephraim Bueno” – Martim Alvarez – 1599-1665, de 1647, por Rembrandt von Rijn, 1606-1669)

De igual forma me parece passível poder estabelecer-se a mesma relação entre esta última suposição e o inusitado interesse de muitos outros artistas seus contemporâneos pela representação pictórica de estudos anatómicos, como aconteceu nos casos referidos no Quadro2. Esta mesma constatação, ou seja, de a sua grande maioria ter a mesma origem geográfica e ter pertencido à mesma escola pictórica, não será talvez fruto de algo mais do que uma simples coincidência, pergunto? (141)


Quadro 2

Mas, para além destas, muitas outras personagens daquela mesma comunidade de luso-descendentes tiveram uma enorme importância na sociedade do seu tempo, uma parte significativa das quais, curiosamente, diplomadas pela Universidade de Salamanca na nossa vizinha Espanha. Incluem-se nelas, sobretudo, cientistas, médicos, filósofos, teólogos, comerciantes e banqueiros que exerceram a sua atividade, quer nos Países Baixos, em especial de Amsterdão, quer em muitos outros países. São exemplo disso, os clínicos referidos no Quadro 3, bem como muitos outros membros integrantes da denominada “Nação” que seria fastidioso citar aqui exaustivamente (142-161).

Samuel Zacuto, Portugal, 1452, Turquia (?), 1525; Judá Abravanel ou Leão Hebreu, Lisboa, 1464, Itália, 1535; Manuel Brudus ou Dionysius Brudus, Portugal, 1470, Inglaterra (?), 1540; Joseph Abravanel, Lisboa, (‘), Ferrara (?), 1552; Garcia de Orta, Castelo de Vide, 1501, Goa, 1568; João Rodrigues Castelo Branco ou Amato Lusitano, Castelo Branco, 1511, Salónica, 1568; Garcia Lopes, Portalegre, 1520, Évora, 1572 (viveu e exerceu também em Antuérpia); Hector Nuñez, Portugal, 1521, Inglaterra (?) França (?), 1591; João Micas, Portugal, 1524, Istambul, 1579; Rodrigo Lopes, Crato, 1525, Tyburn (inglaterra), 1594; Rodrigo Aires Santilhana, Castelo Branco, 1534, Flandres, (?); Manuel Álvares, Beja, 1545, Toulouse, 1612; Henrique Jorge Henriques, Guarda, 1545, Espanha (?), 1622; Rodrigo de Castro, Lisboa, 1546, Hamburgo, 1629; Francisco Sanches, Braga, 1550, Toulouse, 1622; Luis Nunes ou Ludovicus Nennius, Antuérpia, 1553, Antuérpia, 1645 (amigo de Rubens e filho de Álvaro Nunes, médico português); Estevão Rodrigues de Castro, Lisboa, 1559, Florença, 1638: Filipe Montalto, Castelo Branco, 1567, Florença, 1616; Tomás da Fonseca, Covilhã, 1562, Espanha, (?); Samuel da Silva, Porto, 1570, Hamburgo, 1631; Miguel Silveira, Celorico da Beira, 1580, Nápoles, 1644; Manuel da Fonseca, Covilhã, 1584, México, (?); Gabriel da Fonseca, Itália (?), 1586-1668 (filho de Rodrigo da Fonseca); Manuel Francês ou Jacob Rosales, Lisboa, 1588, Florença, 1662; Benedito de Castro ou Baruch de Castro, Hamburgo (?), 1597, Suécia (?); 1684 (filho de Rodrigo de Castro); Fernando Cardoso ou Isaac Cardoso, Trancoso, 1603, Verona, 1683; André Rodrigues Franco, Idanha-A-Nova, 1610, Baía (Brasil) – (?); Isaac Orobio de Castro, Bragança, 1617, Amesterdão, 1687; Simão Pinheiro Morão, Covilhã, 1618, Brasil (?), 1686; Diogo Nunes Ribeiro ou Samuel Nunes, Idanha-A-Nova, 1668, Nova Iorque, 1744; Fernando Mendes ou Fernando Moses, Portugal, 1645, Inglaterra (?), 1724; Samuel Nunes Ribeiro, Portugal, 1667, Georgia (EUA), 1741; Daniel da Fonseca, Porto, 1672, Paris, 1740; João Nunes Viseu, Idanha-A-Nova, 1672, Brasil, (?); Isaac Samuda, Lisboa, 1681, Londres, 1729; Jacob Castro Sarmento, Bragança, 1691, Londres, 1762; António Nunes Ribeiro Sanches, Penamacor, 1699, Paris, 1783; Benjamim Sola, Lisboa, 1735, Curaçao, 1817; Manuel Joaquim Henriques de Paiva, Castelo Branco, 1752, Baía (Brasil), 1829; José Vizinho, Covilhã, Veneza (?), sec XV; Rodrigo da Fonseca, Lisboa, sec. XVI, Itália; António Fonseca, Portugal, sec XVI, Flandres (Louvain ?), sec XVI; Joseph Diego, Porto sec XVI, Flandres (?) sec XVI (?); Jacob Zemah, Portugal sec. XVII (viveu m Damasco e Jerusalém); Abraham Ferrar, Porto, sec XVII, Amesterdão, 1663; Gabriel Fonseca, Portugal, sec XVII, Roma, 1668; Jacob Lumbrozo, Lisboa, (?), Meryland (EUA),1666.

Quadro 3

Esta extraordinária gesta de reconhecidos médicos, ao embarcar para o exílio, acabou por ter uma reputação enormemente reconhecida nos diversos países por onde passou ou naqueles em que se refugiou, uma parte importante dos quais nunca mais tendo voltado à Mãe-Pátria que, na realidade, tão madrasta foi em muitos momentos da sua vida. Trataram, pois, muitos dos elementos das mais influentes famílias da nobreza e da burguesia emergente de então, alguns destacados membros das casas da Realeza Europeia (reis, imperadores, e príncipes), e mesmo da hierarquia da Igreja Católica em Itália (incluindo vários Papas), para além de lecionarem em diversas e afamadas universidades, em algumas das Repúblicas Italianas, na vizinha Espanha, em França, na Bélgica, na Inglaterra, na Dinamarca, na Alemanha, na Suécia, na Polónia, na Rússia, na Índia, tal como também, no outro lado do Atlântico, no Brasil, no México, nas Caraíbas (sobretudo nas ilhas sob administração holandesa), nos EUA e, como já ficou bem destacado, na Holanda, pelo que não pode pois constituir motivo de surpresa alguma que tenha tido efetiva e marcada influência na sociedade dessa época histórica.
Quase todos os membros desta comunidade, depois de deixarem a Península Ibérica e de retornarem à prática do judaísmo, alteraram os seus nomes, designadamente acrescentando ao mesmo Lusitanus, e ainda hoje muitos dos seus descendentes guardam para si e o transmitem religiosamente aos descendentes, um dos maiores tesouros da sua ancestral família: A chave da casa que habitavam primitivamente nos afortunados e saudosos tempos da relativa tolerância religiosa ibérica.
Nada melhor então do que meditar, no que toca à tremenda injustiça histórica e humana (para os próprios) e a consequente perda para o País (irreparável!?…), nas palavras do Padre António Vieira (chamado numa tese de “O Paladino dos Hereges”) (162) acerca da perseguição a estes nossos “irmãos” de antanho: “… o sangue é o que Deus deu a cada um, sem eleição de quem o tomou; o procedimento é o que cada um fez em si com liberdade e livre alvedrio nas obras, e por isso é razão que seja defeito em cada um o mau procedimento. Mas o ter bons ou maus pais, ou descender deste ou daquele sangue, não é defeito nenhum em quem o tem… é possível, senhor, que para se castigar qualquer delinquente, posto que notoriamente o seja, e para se condenar alguém… não podem as justiças e não costuma Vossa Excelência dar sentença, nem tomar resolução, sem ouvir, e sem citar as partes ambas, e agora se castigam tantos milhares de pessoas na perda da honra, da pátria, dos ofícios e da fazenda, sem os ouvir, e sem lhes mandar que respondam? Sirva-se Vossa Alteza de considerar que quando se procede contra partes não ouvidas, ainda que se pronuncie o que é justiça, sempre se procede sem justiça… ”.
Mas haverá alguém que, por esse mundo fora, tenha pronunciado alguma vez um libelo mais apropriado contra a prepotência do poder e a discriminação para com quem é diferente do arbitrariamente tido por convencional? Duvido… Só mesmo uma pessoa com uma inultrapassável verticalidade de caráter, uma insuperável coragem de enfrentar os algozes responsáveis pelas trevas da hedionda Inquisição e com uma inabalável coerência de princípios o poderia ter feito (163). Que pena o seu enorme exemplo cívico não poder influenciar positivamente as novas gerações de políticos que por este mundo fora tão grandes desmandos fazem presentemente, sob a bandeira da mesma atávica intolerância, fazendo assim recair as terríveis consequências sobre tantos e tão inocentes cidadãos de forma assaz torpe!

Conclusões
(“A primeira missão de um médico é de ordem … política: A luta contra a doença deve começar pela guerra contra as más políticas”, Michael Foucault, filósofo e pensador francês, vítima de SIDA, 1926-1984, in “O nascimento da clínica”, 1963)

Se tivermos que selecionar dois exemplos muito recentes daquilo que Michael Foucault apelidou de más políticas, poderíamos citar o facto de o Grupo que foi nomeado pelo atual Governo para rever a Lei de Bases da Saúde não ter na sua composição um único médico ou sequer outro qualquer profissional de saúde e também que o mesmo fez “ouvidos de mercador” à recomendação contida no relatório final da iniciativa comunitária denominada “Health Parliment Portugal” para que a contabilização média do tempo de cada consulta, sobretudo ao nível dos Cuidados de Saúde Primários, passasse a ser sensivelmente superior à cifra atual de 15mn (e que, logicamente, a capitação por Médico de Família se aproximasse dos inicialmente previstos 1500 doentes e não dos quase 2000 existentes, como muitos colegas – e doentes – justamente clamam de forma reiterada). O exercício da medicina é, (também) por isso, cada vez mais parecido, por força das circunstâncias e como consequência direta dos padrões organizativos vigentes implementados, com uma linha de montagem de ver (não de observar!) doentes (184-165), do que com o exercício profissional segundo o figurino alternativo que aqui tenho vindo a defender (166-167) (e que expus detalhadamente no meu livro “Ode ou Requiem” que está disponível em formato digital em josepocas.com) (168), ou em “Ser Mortal” do incontornável cirurgião Atul Gawande (169).
A atividade clínica está assim, presentemente, numa acentuada crise de identidade, pois debate-se, em simultâneo, com a indesejável, mas inexorável desvalorização da importância da anamnese e da semiologia como elementos estruturantes do ato médico, bem como se caracteriza por estar cada vez mais submersa numa complexa, inoperante e absurda burocracia, implementada com a chancela oficial da hierarquia que tem liderado este complicado setor, com o (in)confessado e aparente propósito de rentabilizar o tempo despendido nessa atividade pelos seus profissionais, quando na realidade, o que se pretende, acima de tudo, é mesmo ter um controlo obsessivo sobre todos os índices contabilizáveis (apesar de, na realidade, nem isso ser adequadamente conseguido, em muitas das circunstâncias, pela gritante inoperacionalidade dos meios informáticos disponibilizados!). Cenário onde impera, pois, a sobrevalorização da utilização da (pseudo)tecnologia em detrimento da humanização nas atitudes e da empatia nas decisões entre os que supostamente deveriam ser os “únicos” e “verdadeiros” interlocutores desta singular relação: o Médico e o Doente.
O tempo transformou-se desta forma num bem tão escasso, que acabou por precipitar a disseminação de um avassalador estado de burnout coletivo quase generalizado (170-173), onde cada pessoa sente que quase só equivale a uma simples peça completamente descartável em qualquer momento no seio de toda a complexa e desumana maquinaria existente, porque o que conta é cada vez mais o apelidado e redutor “primado” do coletivo, em detrimento da saudável intercomplementaridade do conjunto das individualidades, sendo certo que estas últimas jamais serão passíveis de serem padronizáveis como se se tratassem de meros robots telecomandados por oculta e tenebrosa autoridade, tal como foi imaginado no inolvidável romance “1984” do grande romancista britânico, George Orwell.
Não seria melhor, então, meditarmos muito bem naquilo que Antoine de Saint-Exupery, um intrépido aventureiro, nos pretendeu transmitir, ao afirmar “Se a vida não tem preço, nós comportamo-nos sempre como se alguma coisa a ultrapassasse em valor… Mas o quê?”.
Seria, pois, bastante mais adequado, passar a investir em paralelo, a par do estudo da matéria médica propriamente dita (obviamente!), também no conhecimento de algumas disciplinas ligadas às humanidades (Ética, Filosofia, Sociologia, História, Literatura, Pintura ou Cinema) (174-192) para uma mais completa formação dos médicos, em vez de se endeusar permanentemente as capacidades omnipotentes, omniscientes e omnipresentes da impessoal tecnologia, não deixando nunca de transmitir que existem, não apenas um, mas antes dois significados igualmente válidos para a agora tão usada expressão de “Medicina Personalizada” (193-194): A versão tradicional, ou seja, a de que o seu exercício deverá supor sempre o respeito pela ética e pelo conjunto de características (psicológicas, filosóficas, antropológicas, sociológicas e mesmo, religiosas) de cada indivíduo, na persecução do princípio segundo o qual “uma doença idêntica numa pessoa diferente é uma doença distinta”, e a mais recente, mas igualmente válida, em que o que se valoriza, acima de tudo, é a singularidade do património genético de cada pessoa, e assim se poder passar a explicar melhor porque é que um determinado fenómeno em doentes diferentes, produz efeitos distintos, porque é que, para a mesma doença, indivíduos diferentes reagem de modo desigual ao mesmo tratamento, ou algo muito semelhante ocorre com o prognostico vital da enfermidade em causa.
Não foi o grande escritor Albert Camus que afirmou também de forma lapidar que “Um Homem sem ética é uma besta selvagem solta no mundo” e que isso deveria constituir certamente uma preocupação cívica para todo o cidadão???
Quanto não se teria a ganhar com o aprofundado conhecimento da história da Medicina ou com o contributo da pintura para o estudo das enfermidades, tal como se poderia obter idêntico proveito através do aperfeiçoamento dos conhecimentos em semiologia clínica como meio de rentabilizar a boa utilização dos meios tecnológicos, e não a sua generalização acéfala como se de uma panaceia universal se tratasse ou, ainda, a obsessão levada ao extremo em que esse é o único meio para apurar os apelidados índices de qualidade.
Foi o genial cientista Albert Einstein que afirmou de forma assaz provocativa que “Nem tudo o que pode ser contado, conta, e nem tudo o que conta, pode ser contado”, e isso deveria ser motivo de permanente e óbvia meditação por parte dos governantes!!!!
Deverei referir, nesta altura da exposição, que a explicação algo filosófica capaz de fazer entender este novo paradigma de comportamento individual, e até mesmo coletivo, seria o de admitir que o Homem procura dessa forma, ainda que algo inconscientemente, apoderar-se dos poderes tradicionalmente reservados para serem propriedade exclusiva e distintiva das divindades, designadamente, o do acesso à eternidade. Mais uma vez servindo-me da analogia com a pintura, questiono-me se não terá sido precisamente essa a simbologia oculta por trás do gesto do quase tocar as pontas dos dedos entre Deus e o Homem, legado à Humanidade por um dos expoentes máximos do renascimento italiano, o pintor Michelangelo, no teto da Capela Sistina do Vaticano, na intemporal obra intitulada “A criação de Adão”, que levou cerca de quatro anos a ser concluída, após a formalização da respetiva encomenda papal? (195-197) (Fig. 15).

Fig. 15- (“A criação de Adão” de 1511 por Michelangelo Buonarroti, Caprese)

Existem, consequentemente, algumas questões que importaria, assim, ter capacidade, neste contexto, para se poder responder adequadamente: para onde caminha afinal a Humanidade? Qual o papel que o Homem pretende desempenhar na Sociedade do futuro? Como será então o exercício da Medicina? Qual o papel nela reservado ao Médico?
Voltaire, um grande filósofo e pensador francês disse o seguinte: “Os médicos são homens que prescrevem medicamentos sobre os quais conhecem pouco, para curar doenças que ainda conhecem pior, em seres humanos de quem efetivamente quase nada sabem”. Iremos nós permitir que se concretize tão interpelante sentença?
A finalizar, citaria Karin Johannsson, uma sueca especialista em história das ideias e do pensamento, que afirmou de forma, a meu ver, muito lúcida e acutilante, o seguinte (198): “… o encontro entre o médico e o doente como símbolo da medicina foi ultrapassado pela imagem do cientista que examina um objeto. Dispõe-se atualmente de instrumentos … que agudizam a capacidade diagnóstica, mas que também aprofundam distâncias”.
Ou seja, no meu entendimento, esta autora alude à distância entre o que distingue os conceitos e a prática da Medicina Clínica e da Medicina Tecnológica, algo que eu próprio também abordei recentemente num artigo intitulado “O fosso”, publicado na revista da OM (199) (e disponível em josepocas.com). Mas, na realidade presente, não são apenas as distâncias desta natureza que nos devem preocupar, mas igualmente as que existem entre a Medicina Holística e a hiperespecialização desgarrada do contexto pluridimensional do doente, bem como entre os valores fundacionais da Medicina e a praxis do exercício profissional e entre aquilo que se diz ser o espírito genuíno da legislação e a consequência previsível dos seus efeitos (não raramente nefastos).
Aos cidadãos, sobretudo aos doentes, e aos profissionais de saúde, em particular aos médicos, caberá uma derradeira e decisiva palavra sobre estes assuntos. Aos políticos, caberá responder publicamente pela eficácia, pela coerência e pelas verdadeiras intenções das decisões que tomarem em função das suas efetivas consequências para os cidadãos e para a sociedade. Assim o espero.

Agradecimentos
Ao Vitor Laerte, pelo desafio. À Ana Rias e à Conceição Crispim, pela ajuda. Á Ana, à Joana, ao João, ao Simão e à Alice pelo muito que me inspiram.

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Anexamos um artigo sobre o sobre o trabalho humano ao longo da história da autoria de Telo Fialho Nunes Bettencourt de Faria, assistente graduado de Medicina Interna da ULSBA -Beja, coordenador do Núcleo Estudos VIH da SPMI e coordenador da Região Alentejo da Infeção VIH e das Hepatites Víricas

 

O artigo faz-se uma breve revisão da história da Infeção VIH, desde a sua origem em África, nos anos vinte do seculo passado, até aos dias de hoje. Em simultâneo com esta descrição cronológica, mostra-se algumas obras da pintura universal. É precisamente a partir das mesmas, que vamos criando analogias e pontes com a própria evolução da infeção nas áreas da epidemiologia, da clínica, da análise laboratorial, da terapêutica, da prevenção, da profilaxia e da dimensão social .

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VIH revisitado com quadros

Anexamos um artigo sobre o sobre o trabalho humano ao longo da história da autoria de DAVID FERNANDES LUÍS, especialista em Medicina do Trabalho com as Cometências em peritagem médica da segurança social e de avaliação do dano corporal

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ARTIGO___O_TRABALHO_HUMANO___HISTORIA_David_Luís

Resumo da conferência proferida na Secção de História da Medicina da SGL:

 

 

António Ferreira, cirurgião do Século XVII, “O paré dos portugueses”
João Fortuna Campos

 

 

Sendo Cirurgião e gostando de falar da minha arte e dos meus antepassados, escolhi este título que me permite recordar este eminente cirurgião- António Ferreira – que foi “ Pai da Cirurgia” em Portugal no século XVII e que pelos seus atributos foi considerado o «Paré dos Portugueses». Para que se compreenda melhor a aprendizagem desta arte, que é ramo da Medicina e que pretende curar pelas mãos, vamos referir em termos gerais, os cirurgiões percursores até ao século XVII, a maioria deles citados no seu livro “LUZ VERDADEIRA e RECOPILADO EXAME de TODA A CIRURGIA”, e que foram considerados também “ Pais da Cirurgia “ nas suas épocas. Iniciamos estas referências na Antiguidade com Sushruta  que viveu 600 anos A.C. ensinando e praticando cirurgia e que no seu livro “ Sushruta Samhita “  menciona já intervenções de elevado grau de dificuldadeDepois e ainda na antiguidade teremos que referir Hippocrates que foi o grande reformador da Medicina e da Cirurgia abandonando o pensamento religioso e introduzindo o método científico.

 

Já na era cristã – 1º século – referimos Celso, que no seu livro menciona as qualidades que deve ter o cirurgião e descreve procedimentos cirúrgicos para a remoção da catarata e para a consolidação de fraturas. Depois referimos Galeno grande anatomista, experimentador e praticante de cirurgia no animal, desenvolvendo assim teorias que permaneceram até ao século XVI. No II século D.C. na Escola de Alexandria mencionamos Leónidas que descreve já determinadas intervenções cirúrgicas – mastectomias  com incisões em tecidos sãos e depois cauterização.

 

Na Idade Média – século VI referimos Aécio  – cirurgião grego que descreve várias intervenções cirúrgicas; no século VII Paulo de Egina  que no seu “ Compendio Médico “ faz a descrição esmerada de muitas intervenções cirúrgicas, que vão influenciar a cirurgia árabe. Nos cirurgiões árabes destacamos Albucasis  o “Pai da Cirurgia”  que escreveu uma obra médica de renome – Al Tasrrif – (Livro de prática médica e Tratado de Operações de Cirurgia – 30 volumes) e que foi usada nas Universidades da Europa durante 5 séculos; Avicenna  considerado o maior cientista do Irão e que nos deixou um livro “ Canon” que foi texto até meados do século XVII. No século XIII referimos um professor da Escola de Bolonha- Guido Lanfranchi  e que afirmava nos livros que nos deixou “ Chirurgie Magna “ e “ Pequena Cirurgia “  “de nada vale um cirurgião que não saiba medicina “.No século XIV referimos o grande Cirurgião Guy de Chauliac  que escreveu  “ Grand Chirurgie” o livro mais célebre da Idade Média – e que vai durar quase dois séculos.

 

No século XVI ocorreu um marco na história da medicina ocidental  – a obra de Vesálio–“De fabrica corporis humani “e que a partir de agora os médicos vão todos eles praticar disseção dos cadáveres. Será durante a Renascença que a cirurgia começa a ser considerada uma actividade digna de ser praticada pelos médicos, sendo depois associado o ensino da Anatomia.

 

Mencionemos agora o Pai da Cirurgia Francesa Ambroise Paré que foi considerado o maior génio do mundo – os seus métodos revolucionários do tratamento das feridas por arma de fogo e da laqueação dos vasos em vez da cauterização. Já no século XVII – século da revolução científica onde aconteceram descobertas fantásticas com Harvey, Malpighi, Sydenham, Aquapendent, Pequet e muitos  outros, que vão dar novos rumos à Medicina / Cirurgia.

 

Depois de mencionarmos todos estes homens de génio e cirurgiões percursores, vamos referenciar os cirurgiões portugueses, desde a nossa fundação como reino e que também contribuíram para que o nosso António Ferreira fosse nesse século XVII considerado o Pai da Cirurgia e comparado ao famoso Paré. Assim no século XII os cirurgiões portugueses apenas praticavam sangrias, preferindo emplastros e pomadas ao uso do bisturi; praticava-se a medicina sacordetal. Mencionamos Pedro Hispano– o nosso papa João XXI – que nos deixa um livro” Thesaurus pauperum – Tesouro dos Pobres ” e que o dedica Àquele  considerado o Pai dos pobres.

 

No final deste século, em 1290 é criada a Universidade  em Coimbra e algo vai mudar em Portugal; assim no século XIV começam a aparecer livros escritos em português, referindo agora Valascus de Taranta que escreve nos seus livros os actos essenciais para o tratamento das doenças: :“ primo sangrare, secunde purgare, tercio cystere donare “. Entretanto os Reis de Portugal começam a exigir que os cirurgiões fossem examinados para poderem exercer a sua profissão pelo – cirurgião – mor. No século XV é emitido este regulamento e as cartas dos cirurgiões são todas emitidas após exame. No final do século é mandado construir pelo rei D. João II o Hospital de Todos os Santos, tendo sido concluído por D. Manuel I que cria aí o 1º ensino oficial de Cirurgia.

 

Até ao século XVI, a história da cirurgia é pobre, apesar da enorme proliferação de pessoas possuidoras de Cartas de Cirurgião e, foi quase totalmente abandonada, porque a Igreja proibia qualquer efusão de sangue.O século XVI é o século áureo da nossa literatura médica e vai também dar origem ao ressurgimento da cirurgia. Em 1556 o Rei D. João III criou no Hospital Todos os Santos a cadeira de Anatomia, que passa a ser ministrada por outro cirurgião / lente – Duarte Lopes e que profere as 1ªs lições de Anatomia e Cirurgia, e tem a «obrigação de fazer as dissecções necessárias dos falecidos no hospital e nos justiçados»; vai dignificar o exercício da Cirurgia.

 

Entretanto PORTUGAL não pôde estar atento ao rumor das grandes descobertas científicas que estão a ocorrer, pois concentra as suas energias para lutar pela sua independência. Mesmo assim lá fora tínhamos médicos com prestígio:Amato Lusitano, Garcia Horta e Zacuto Lusitano (A arte cirúrgica era considerada por Amato como uma arte auxiliar da Medicina). No final do século XVI no regimento Hospitalar passam a existir 3 cirurgiões: Henrique Jorge Henriques – foi cirurgião mor e escreveu “ Retrato do Perfeito Médico, Rodrigo de Castro (De universa mulierum morborum medicina) – onde a mulher é tratada como  numa verdadeira especialidade e António da Cruz – foi o nosso 1º cirurgião didático; ensinou muitos discípulos na arte de cirurgia.

 

Em 1601 redigiu um livro “RECOPILAÇAM de CIRURGIA “que durante muito tempo serviu de texto nas aulas – era o breviário dos cirurgiões durante todo o século XVII até ao aparecimento de António Ferreira com o seu livro. Sobre a cirurgia ele afirmava: “ É necessário ao cirurgião experiência e razão”. A Cirurgia é obra de mãos. [As obras da Cirurgia] são três: apartar o que está junto, ajuntar o apartado, extirpar o supérfluo. Na 1ª metade do século XVII – ano de 1633 – foi criado o Banco do Hospital de Todos os Santos, já nessa data “ Verdadeira Escola de Cirurgia “, onde todos os praticantes do Hospital, além de 5 anos de aprendizagem tinham por obrigação de prestar serviço de Banco antes de serem cirurgiões – primeiro cirurgião dos males e depois cirurgião dos feridos.

 

Falemos então agora do Pai da Cirurgia PORTUGUESA deste século – António Ferreira. Mencionaremos os dados biográficos e sobre os seus dados bibliográficos analisaremos pormenorizadamente algumas doenças e o modo como ele as tratava e que estão mencionadas no seu livro “LUZ VERDADEIRA e RECOPILADO EXAME de TODA A CIRURGIA”. E por fim compararemos as características que o apelidaram de Paré dos Portugueses.

 

António Ferreira foi homem famoso e de raros talentos, cirurgião que fez gloriosa época nos anais da Cirurgia Universal, é o resumo de tudo o que se havia escrito ao tempo sobre Cirurgia. A sua obra foi a Bíblia dos cirurgiões portugueses durante mais de um século, tendo conquistado reputação  nacional e internacional

 

 

Das semelhanças entre António Ferreira e Ambroise Paré, salientamos que ambos escreveram livros que foram texto durante anos, ambos têm qualidades científicas: deram lições teóricas  e praticaram cirurgia (pedagógicas), ambos foram cirurgião –mor  dos Reinos e ambos forem famosos : 1ºs  na época e no País

 

Diferenças entre ambos, salientamos os estudos universitários  /  barbeiro que aprendeu com a prática;  António Ferreira frequentou teatro anatómico  /  Ambroise Paré aprendeu no teatro de guerra;  António Ferreira foi vélebre em Portugal  /  Ambroise Paré, Pai da Cirurgia em França.

 

Foram ambos Génios? Coloco dúvidas em relação ao nosso cirurgião.
Resumo da conferência proferida na Biblioteca Álvaro Campos, Tavira:

 

 

Renascimento, um período inovador na História da Humanidade, no que concerne à medicina a figura de André Vesálio.
José Manuel Martins Ferreira Coelho
(MD; PhD; FACS; HE; KL-J)

 

 

O Renascimento é um período da História da Europa mal definido cronológicamente,  intercalado entre os fins do século XIV e início do século XVII, durante o qual se deram transformações da vida da Humanidade, com evidência na cultura, sociedade, economia, política, religião, mutacionando as estruturas medievais (o feudalismo específico, nato) para um capitalismo nascente e liberalizador, infiltrando-se nas ciências, nas artes e na própria filosofia, em virtude da redescoberta e revalorização das referências culturais da antiguidade clássica, que nortearam as mudanças deste período em direcção a um ideal humanista e naturalista.

 

O termo foi registado pela primeira vez por Giorgio Vesari já no século XVI, mas a noção de Renascimento como hoje o entendemos surgiu a partir da publicação do livro de Jacob Burckhart – A Cultura da do Renascimento na Itália (1867), onde definia o período, como  uma época de  “Descoberta do Mundo e do Homem”

 

Neste período, nasceu em Bruxelas, no ano de 1514, em 31 de Dezembro. Andries van Wesel, também conhecido na Europa do seu tempo por: Andrea Vesalius , Andrea Vesalio , Andreas Vesal, André Vesalio, Andre Vesalepo.

 

Descendente de uma família de médicos (seu bisavô e avô) e farmacêuticos (seu pai era boticário do Imperador Maximiliano I ‘Habsburg’). Natural do ducado de Brabant (zona Sul da Bélgica), casou-se em 1544, tendo tido uma filha.

 

Os estudos de Vesalius sobre a estrutura do corpo humano evidenciam o primeiro avanço real na ciência moderna, o seu livro é considerado aquele que assinala o início da ciência moderna.

 

É importante também notar que a dependência de descripções e ilustrações não é uma indicação do estado imaturo de uma ciência descriptiva, mas um elemento fundamental em sua estrutura , relacionado à natureza do seu ‘subjectum’.

 

De Humanis Corporis Fabrica, libri septem (1543) é o mais bem acabado, elaborado e ilustrado livro da Arte Médica da Renascença, dividido em sete partes (volumes ou capítulos), tentando apresentar além das observações e experimentações objectivas e directas (dos desenhos e esquemas do próprio Autor), além de uma sistematização e distribuição metódica dos assuntos, numa nova visão de entendimento e, ensino duma actual pedagogia.

 

Assim apresenta: Os Ossos, Os Músculos, O Sistema Circulatório, O Sistema Nervos, O Abdómen, O Coração e Pulmões, O Cérebro. As suas diversas ilustrações, bem perceptíveis, cuidadosamente e correctamente elaboradas por Jan Stephen van Calcar, aluno do grande Mestre da Pintura Ticiano.

 

Vesalio foi alvo de invejas, rivalidades e ofensas, como deminstra a posição de Jacobus Sylvius, Professor da Universidade de Paris.

 

A carta de JACOBUS SYLVIUS (1478-1553) enviada para o Imperador Carlos V a quem seu ex-aluno Vesalius servia como médico da corte, é muito clara a esse respeito, embora em 1545 Sylvius lutasse por uma batalha já perdida: Eu imploro a Sua Majestade o Imperador que puna severamente como ele [Vesalius] merece, esse monstro nascido e criado em sua própria casa, esse mais pernicioso exemplar de ignorância, ingratidão e impiedade, a fim de eliminá-lo para que ele não envenene o resto da Europa com o seu  hálito pestilento. […l]Mas se, naquela mistura excessivamente confusa de caluniador, algo apropriado a ser lido é encontrado (pois nenhum escritor é completamente mau), isto é tão pequeno que pode ser acomodado em uma simples folha de papel, considerando que se descarte as ilustrações, as quais são cobertas por sombras e têm letras a elas fixadas. Todo método de empregar essas coisas é decididamente supersticioso e obscuro, e completamente sem uso, sua Majestade deveria considerar as ilustrações e as letras mais como um impedimento do que uma ajuda. […] De facto, Galeno não permitiu nem mesmo plantas serem assim descritas no começo do sexto livro, De facul, simp,med.

 

A sua obra constitui um importante legado para a humanidade. Nas palavras do próprio Vesalius: «Nada mais útil podia eu fazer do que fornecer uma nova descripção da totalidade do corpo humano, cuja anatomia ninguém compreendia, uma vez que Galeno, apesar de seus extensos escritos, oferecia muito pouco sobre o assunto, e não vejo de que outra maneira eu poderia ter apresentado meus esforços aos alunos».

 

As exigências de análise, deverão ser inteligentes, rigorosas e fundamentadas, talvez por isso, a “Ciência Histórica” seja tão aliciante, apaixonante, perturbadora e intrigante, deixando como valia inovadora o senso de integração das múltiplas áreas do saber, associadas ao “bom senso” do progresso, sabendo estas integrarem-se igualmente, na visão do “tempo e do espaço”, do próprio passado.

 

A abrangência de tantos amantes e entusiastas da “Ciência Histórica”, integra-se no vasto sistema, da verdadeira cultura universal formatando as mais valias do conhecimento e, do saber, parafraseando Cícero: «Não conhecer o que se passou no Mundo antes de nós, é permanecer na infância.»
SCHILLER, DOCTOR MEDICINAE
Maria do Sameiro Barroso
RESUMO

 

 

Esta comunicação aborda a relação de Friedrich Schiller com a medicina e o pensamento médico do seu tempo.

 

A partir dos seus estudos de medicina, o pensamento de Friedrich Schiller sofre uma transformação, através da qual se torna um pensador de charneira, criando os paradigmas da nova visão antropológica, a caminho do pensamento científico moderno.

 

Os escritos médicos e a sua recepção são analisados sucintamente, bem como a sua praxis médica, a recepção posterior das suas teses, equacionando a modernidade do seu legado para a Psicologia, a Psiquiatria, a Medicina Psicossomática e as Neurociências.

 

 

Acaba de ser publicado o Boletim da Sociedade De Geografia de Lisboa, Série 132 -N.os 1-12 Janeiro-Dezembro – 2014, na qual foi incluído o meu artigo, “Schiller, doctor medicinae”, que percorre as relações fascinantes entre a literatura e a medicina, fornecendo também uma achega importante para a importância dos estudos de História da Medicina. De acordo com um dos mais prestigiados estudiosos de Schiller, Wolfgang Riedel, compreensivelmente, os seus escritos médicos ficaram na sombra da obra literária do jovem Schiller, na orla dos interesses dos estudos literários schillerianos.

 

A história da medicina alemã devia ter dado a informação que os trabalhos médicos não eram trabalhos de circunstância, mas sim trabalhos com valor científico. Este reconhecimento irrompeu no grande jubileu que ocorreu entre 1955 e 1959. Só então a medicina registou, não sem admiração, a inegável actualidade destes estudos, já com quase duzentos anos.

 

O médico Schiller revelava-se, fossem quais fossem as suas especulações, um psicólogo ou um psiquiatra avant la lettre, percursor do método holista, antecipando a medicina psicossomática ou intuindo uma psicologia materialista, apesar do pendor metafísico, patente nas teses. (Wolfgang Riedel, Die Anthropologie des jungen Schiller, Zur Ideengeschichte der medizinischen Schriften und der “Philosophischen Briefe”, Königshausen & Neumann, 1985, Würzburg, pp. 3-5).
Vesalius, Vol.XXI, No.2, December 2015
The Hellebore, the Plant beloved by the Greeks: the Reasons behind a Myth
Maria do Sameiro Barroso

 

 

Abstract: The Hellebore, the Plant beloved by the Greeks: the Reasons behind a Myth Maria do Sameiro Barroso Abstract: This article surveys the characteristics and therapeutic use of black and white hellebore, the beloved plants of the Greeks. It triesto assess the reasons for their possible correct or disastrous use, according to the Greek texts, focusing on some evidence of drug experiments on tolerance to poisons, performed before MithidratesEupator´spioneering approach to toxicology. It also draws on new insights into promising remedies obtained from Helleborus provided by phytochemically active compounds.

 

Résumé: Cet article recense les caractéristiques et l’utilisation thérapeutique de l’ellébore noir et blanc, les plantes bien-aimés des Grecs. Il tente d’évaluer les raisons de leur possible utilisation correcte ou désastreuse, selon les textes grecs, en mettant l’accent sur certains éléments de preuve d’expériences de la drogue sur la tolérance aux poisons, effectuée avant les études pionnières de Mithridate Eupator sur la toxicologie. Il apporte aussi de nouveaux éclairages sur les remèdes prometteurs, obtenus à partir des Helleborus fournies par des composés phytochimiques actifs.
Publicamos em seguida o resumo do artigo da autoria de Maria do Sameiro Barroso, publicado no livro de homenagem ao Professor Dias Farinha editado em 2015 (D’AQUEM, D’ALÉM E D’ULTRAMAR. HOMENAGEM A ANTÓNIO DIAS FARINHA):

 

 

A ARTE CURATIVA DOS CELTAS
Resumo

 

 

Após definir as populações de língua celta, bem como o seu território de origem e rotas de expansão, deter-me-ei sobre a revisão dos achados arqueológicos relativos a crânios trepanados, em particular 15 do período Hallstatt, La Téne, final da Idade do Ferro, em esqueletos encontrados em cemitérios da Áustria, perto de Salzburg e Viena.

 

Os Celtas não tinham médicos de profissão. Eram os druidas que exerciam as acções preventivas e curativas, no âmbito de uma religião mágico-xamânica que preconizava estilos de vida saudáveis e visava o restabelecimento e o fortalecimento de energias. Os druidas não deixaram nada escrito, nem uma tradição oral estruturada. Os seus conhecimentos são reconstituídos através de testemunhos romanos e da tradição celta escrita posterior. Os druidas utilizavam preces, amuletos e possuíam um vasto conhecimento das propriedades medicinais das plantas, das quais, a sua preferida era o visco.

 

Há indícios de que as mulheres teriam exercido funções de druidas, desde o período de La Téne. Foram encontrados os corpos de um casal de druida de elevado estatuto social, sepultados juntamente com fíbulas, amuletos e instrumentos cirúrgicos, o que aponta para o facto de ambos terem praticado a medicina e a cirurgia.

 

Os conhecimentos celtas, nomeadamente no âmbito das plantas medicinais e as suas tradições foram preservadas após o período romano, em documentos escritos de que deixamos um exemplo:

 

 

 

ENCANTAMENTO CONTRA FERIDAS

 

 

Três feridas sangrando em três bocas:

 

O seu veneno na Natureza, a sua raiva no cão,

 

o seu fogo no bronze!

 

Que homem algum sofra dano!

 

 

Três qualidades de sangue em três bocas:

 

Sangue de cão, sangue de lobo, sangue do festim de Flidais[1].

 

Onde a minha fórmula mágica for aplicada, não se tornará

 

funda ferida, ferida sangrante, úlcera, tumor!

 

 

Invoco as três filhas de Flidais:

 

Oh, Nater, sara a úlcera!

 

Eu combato a doença, eu combato as feridas,

 

acalmo o tumor, curo a doença,

 

contra o cão, queataca , contra o espinho, que fere,

 

contra o ferro, que corta.

 

 

Bênção para esta doença, bênção para o corpo, na qual

 

se esconde!

 

Bênção para esta fórmula sagrada, bênção para todos!

 

 

________________________________________

 

[1] Flidais era uma divindade feminina da floresta. O sangue do seu festim significa sangue selvagem.

Anexamos o artigo completo intitulado “Garcia da Orta: Esquecido Pioneiro do Conhecimento Experimental”, da autoria de Miguel Ângelo Salema. Um resumo deste artigo foi publicado na Revista da Ordem dos Médicos de Setembro de 2015.

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Anexamos o artigo intitulado “Aparição” da autoria da médica Mariana Bettencourt o qual foi apresentado na Reunião, organizada pelo Distrito Médico de Setúbal,  comemorando o Quinto Centenário do nascimento de Vesálio (uma evocação romanceada do percurso do anatomista, em diálogo com uma das primeiras estudantes de Medicina na Europa).

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Post-mortem cesarean section and embryotomy: myth, medicine, and gender in greco-roman culture

Anexamos um artigo original da autoria de Maria do Sameiro Barroso que foi publicado na Acta medico-historica Adriatica (Acta med-hist Adriat 2013; 11(1);75-88)

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The bezoar stone: a princely antidote, the Távora Sequeira Pinto collection – OPorto

Anexamos um artigo original da autoria de Maria do Sameiro Barroso sobre bezoars que foi publicado na Acta medico-historica Adriatica (Acta med-hist Adriat 2014; 12(1);77-98).

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Fernando Pessoa – Loucura, Mito e Mistificação da Realidade

Anexamos um artigo da autoria de Luís Miguel Rosa Dias (Luís Miguel Roza) e Maria do Sameiro Barroso sobre Fernando Pessoa, o qual foi originalmente publicado na revista Modernista do Instituto de Estudos Modernistas (IEMO) da FCSH da UNL.

 

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Garcia de Orta –  o mundo das plantas medicinais

Anexamos um texto da autoria de Manuel Mendes Silva sobre Garcia de Orta

 

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Um médico (urologista) que foi Papa: Petrus Hispanus

Anexamos um texto da autoria de Manuel Mendes Silva sobre Pedro Hispano.

 

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Amatus Lusitanus: um urologista verdadeiramente europeu

Anexamos um texto da autoria de Manuel Mendes Silva sobre Amato Lusitano.

 

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História da Urologia

Anexamos alguns documentos da autoria do médico Manuel Mendes Silva, sobre a história da urologia portuguesa e as suas relações com outros países.

 

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UROLOGIA_EM_PORTUGAL_VULTOS_E_PRESIDENTES
RELAÇÕES_LUSÓFONAS_E_IBEROAMERICANAS
BREVE_HISTÓRIA_APU_SBU_CAU
2º (E 1º) SIMP. LUSOFONO UROL
Urology´s_development_EUT_Oct_2009

Medicina Portuguesa no Japão. 1542-1640

Por Alfredo Rasteiro

Uma lápide velhinha, cópia de uma outra com muito mais idade, testemunha, em Albergaria-a-Velha, Aveiro, o que foi a Medicina portuguesa nos quatrocentos anos que antecederam o ciclo dos Descobrimentos:
«ALBERG.RA D.POBRES.E.PASAGEIROS.DA
RAINHA.D.TAREJA.COM.4.CAMAS
E.2.ENXARGOIS.EESTEIRAS.LVME.AGOA
SAL.FOGO.ECAVALGADVRAS.E.ESMOLA
E.OVOS.OVFRANGOS.AOS.DOENTES»

D.Tareja (1080? –1130), filha segunda de Afonso VI de Leão, casada com o conde D. Henrique (1094), mãe de Afonso Henriques (1108-1185), fundou Albergaria em 1120. Destinou-a a pobres, e pessoas menos pobres, de passagem.
Albergarias, hospedarias e hospitais eram casas despidas de conforto. Surgiam nas «estradas de Santiago», tinham duas a «quatro camas, enxergões, esteiras, lume, ovos e frangos» e foram muito úteis quando Clérigos, de vestes compridas, deixaram a Cirurgia,  e as Cavalgaduras, aos Aprendizes, de saias curtas, que lhes raspavam as barbas.
Serviam para «mantença» e «aposentamento» de certos servidores e não admitiam incuráveis. Muitas desapareceram. Algumas melhoraram com a Revolução hospitalar de 1492 e a «Carta  hospitalar» do Papa Alexandre VI (23 de Agosto de 1499) que autorizou a concentração de meios em Évora, Coimbra, Santarém e Lisboa. Medicina era, como ainda hoje, como sempre: senso comum, «paciência e caldos de galinha».
Durante a Reconquista, os estudos médicos peninsulares renasceram em Toledo, desde 1085, graças ao arcebispo Raimundo (1126-51), a Gerardo de Cremona (1114-1187) e à «Escola de Tradutores» mouros, judeus e cristãos.  Córdova permanece muçulmana até 1236.
O ensino médico português começou no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, fundado em 1131.
A Universidade nasceu em 1288, em Lisboa, ainda os capelos médicos de Montpellier eram azuis, como os de todas as Artes.
Os Descobrimentos, relançados em 1415, em Ceuta, atrairão médicos que liam o «Cântico da Medicina» do Avicena (980-1037), sabiam o heptacórdio e o octocórdio da Música, os triângulos do «Timeu», do Platão (427-347 a.C.), o quatro, o cinco e o seis da Matemática e da Astronomia, a Tetraktis, …
O Hospital Real de Todos os Santos, de Lisboa, surgirá em 1492 e criará os Cirurgiões de que o País necessitava, práticos em Cirurgia, Farmácia e Dietética. Em 1551, para uma população de 14389 homens e 8591 mulheres, Lisboa contava com 57 Físicos (médicos), 60 Cirurgiões, 18 «Saca-moelas», 25 Parteiras, 46 Boticários, 12 mulheres que vendiam «pasturas» para a cara, 4 homens que faziam óculos, 10 «Infimeras», 20 Cristaleiras (que aplicavam clisteres), 197 Barbeiros e 24 Coveiros (Cristovão Rodrigues de Oliveira: Summario, 1551).
Na década anterior, «No ano de 542 achandose Diogo de freytas no Reyno de Syam na cidade Dodra (Uidá) capitam de hu nauio, lhe fogiram três Portugueses em hu junco q hia pera a China chamauãse Antonio da mota, Francisco zeimoto, & Antonio pexoto.» («Tratado que compôs o nobre & notauel capitão António Galuão»,1563). Os testemunhos póstumos de António Galvão (1505?-1557), Fernão Mendes Pinto (1510-1583): «Peregrinaçam», 1614 e Nampo Bunshi: «Crónica da espingarda», Teppo-Ki, 1606 coincidem no ano da chegada ao Japão: 1542-43. A «Crónica da espingarda» regista o local, o mês e o dia: Tanegashima, 23 de Setembro de 1543. (Armando Martins Janeira: O impacto português sobre a civilização japonesa», Dom Quixote, 1988).
O primeiro Japonês que chegou à Europa chamava-se Bernardo, veio em 1553, pertencia à Companhia de Jesus e repousa em Coimbra, desde 1557. Em 1584 vieram: Mancio Ito, Miguel Chijiwa, Julião Nakamura e Martinho Hara. Tocavam cravo, arpa, alaúde e rabeca. Regressaram ao Japão e deixaram saudades. Japão no feminino adquiriu, em Coimbra, o sabor da novidade.
Os doentes necessitavam muita saúde, «Paciência e caldos de galinha». O caldo aguado permanece «mijo», aqui e no Japão. Luis Fróis recorda o «Arroz mal pilado e hum pequeno de miço assado». Escorbuto, dentes podres, e caldo aguado, marcam os Descobrimentos.
Por cá os bairradinos permaneceram fieis à Pimenta negra do «leitão assado» e Aveiro preservou o Açafrão do «pó de enguia» que «despacha: y que se mueren los patientes riyendo» (Andres Laguna: in Pedacio Dioscorides, 1555).  Rizo amargo, riso amarelo da Curcuma longa L. e genéricos do Chumbo.
O Japão terá «Misso», «Pan», «Koppu», «Tempura», «Waka», «Koendoros», «Sarada», «Oreyo», «Dosso», «Kastera», «Marumero», «Masan», «Bisukouto», «Kantera», «Barusamo», «Teriaka», «Furasuko», «Biidoro», «Haka», «Eansetta», «Shabon», «Osuhitari»… Foi o «Arigatô»,  chegou o «Tchá»…
No Japão de 1543 Pinto verificou que o acesso às medicinas chinesas era muito difícil e que a Cirurgia dos Portugueses, Povos Namban, Bárbaros do Sul, era uma novidade desejada. Correndo riscos, Fernão Mendes Pinto, que não era médico e que não era louco, exerceu medicina e praticou cirurgia.
O Capítulo 136 da Peregrinação regista o caso do Senhor do Bungo, cidade de Osqui (Oita?), «assaz enfermo e atribulado de gota», que lhe rogou se sabia de «alguma mezinha lá dessa terra do cabo do mundo para esta enfermidade» que o mantivera aleijado, e cheio de fastio, nos dois últimos meses. Mendes Pinto esclareceu que «não era médico, nem aprendera essa ciência, mas que, no junco em que viera da China, vinha um pau, cuja água curava muito maiores enfermidades que aquela de que ele se queixava, e que, se o tomasse, teria logo saúde sem falta nenhuma, o que ele folgou muito de ouvir», ou  Mendes Pinto não fosse óptimo propagandista e melhor mercador. O doente curou-se «e foi logo são em trinta dias», havendo já dois anos que estava doente, sem «bulir» os braços. Obtida a confiança do doente, apaparicado por «el-rei, a rainha, príncipe e senhores» e passando o tempo muito a seu gosto, algumas vezes ia com a espingarda, «matando muitas rolas e pombas e codornizes», mostrando o «modo de tiro de fogo» que era novidade absoluta em Tanixumaa (Tanegaxima) e em todo o Japão.
O segundo filho do rei, Arichandono, dezasseis, dezassete anos de idade, aproveitou uma distracção de Pinto e apropriou-se-lhe da arma. Colocou grande quantidade de pólvora e o rebentamento produziu «duas feridas, uma das quais lhe decepou quase o dedo polegar da mão direita» e  outra «acima da testa».
Desenvencilhado dos Bonzos que lhe dificultavam a acção, Mendes Pinto avaliou a ferida da mão, como a mais perigosa, e suturou-a com sete pontos. A ferida da testa levou cinco. Finalizou o curativo com «estopadas de ovos» e ataduras, «como algumas vezes vira fazer na Índia, e aos cinco dias cortou os pontos». Vinte dias depois sobrava «um pequeno esquecimento no dedo polegar».
Mimado pelo rei e senhores, pela rainha e filhas, Pinto despediu-se do Japão com as algibeiras recheadas. Arrecadou «mais de mil e quinhentos cruzados». Derramando lágrimas, obtivera a confiança de um príncipe que arriscou poder ser morto pelo homem que chorava a seu lado, enquanto recusava os cuidados de um bonzo de «noventa e dois anos, e sem vista nos olhos.»
A diminuição da visão resultante de presbiopia pode ser compensada com o uso de óculos «de idade», de lentes convexas, como uns que em 1490 os Chineses ofereceram a um General Ashikaga, quatro dioptrias positivas para o olho direito e cinco no esquerdo, armadura articulada e estojo, em marfim, preservados em Kyoto (Giiti Hukushima: «Oldest spectacles in Japan», American Journal of Ophthalmology, 1963, nº 55 (3), 612-613).
Em 1551 Francisco Xavier (1506-1552) levou um presente propiciatório ao Senhor de Yamanguchi. Este presente fora organizado pelo Governador português de Malaca e continha uns óculos. Malaca era o porto de escala de onde seguiam, para o Japão, produtos chineses encomendados pelos missionários. (Luís  Fróis: «Historia da Japan»). Os óculos oferecidos pelo Padre Francisco eram, com muita probabilidade, chineses. Em 1551 Xavier, quarenta e cinco anos, não necessitava «óculos de idade».
Mas em 1571 o Padre Francisco Cabral, que tinha a «vista curta», passeou-se em Guifu com uns óculos que lhe davam o aspecto de ter «quatro olhos». (Luís  Fróis: «Historia de Japan», edição de José Wicki, Biblioteca Nacional, Lisboa, Vol. II, 1983, p. 363).
Em Portugal, esquecem-se de valorizar a expressão «quatro olhos». Deveriam fazê-lo. Aplicou-se a um peixe do Brasil que Frei Cristovão de Lisboa (1583-1652) desenhou, de forma correcta, com dois orifícios pupilares em cada olho e que designou, apropriadamente, «peixe de coatro olhos», por 1624-27. Padre António Vieira (1608-1697) descreveu-o primorosamente em 17 de Junho de 1654, na catedral de São Luis do Maranhão, no «Sermão de Santo António aos Peixes». Existe em edição Europa-América, 1986.
A expressão «quatro olhos», utilizada por Luís Fróis em 1571, caricaturava o Padre Francisco Cabral e irá aplicar-se ao «peixinho» brasileiro que já foi Anableps tetrophthalmus L. e passou a ser, simplesmente, Anableps anableps, ana+bleps, visão dupla nos dois olhos, para dentro e para fora da água, tal como o observaram Cristovão de Lisboa e António Vieira. Jaime Walter confundiu  o «peixe de coatro-olhos» com o «Peixe voador» e a extinta «Comissão dos Descobrimentos», que o reeditou, manteve o disparate (Frei Cristovão de Lisboa: «História dos Animais e Arvores do Maranhão», edição de Jaime Walter, Arquivo Histórico Ultramarino, 1967, reedição da Comissão dos Descobrimentos, 2000).
Para os Oftalmologistas, os olhos do «coatro olhos» permitem analogias com a «fixação excêntrica», a «falsa projecção» e a «falsa mácula». Despertaram a atenção de Sir Stewart Duke-Elder: «The Eye in Evolution», 1958, pp. 324-326 e, recentemente, foram estudados por Ivan R. Schwab: «Double vision», editorial do British Journal of Ophthalmology, 2002, 86,950.
Os óculos que o Padre Cabral, S.J. utilizava para corrigir a sua miopia, de lentes côncavas, novidade absoluta no Japão, inventados na Europa circa 1550, referidos por Fróis, recordados nos Biombos de Kano Naizen, foram incorrectamente apresentados pelos CTT, em 5 de Fevereiro de 1993, em selos comemorativos, como se fossem de placas negras. Aproveitar a oportunidade seria apresentá-los como eram, de lentes côncavas, novidade absoluta em toda a Ásia, «pais fundadores» de toda a Óptica Japonesa.  O interessante livrinho de Kunio Tsuji: «O SIGNORE, Xogum das províncias em luta», Gradiva, 1992 recordou os óculos do P.e Cabral e a reportagem de Luís Fróis em 1571, em Guifu.
Não podemos falar de Medicina portuguesa no Japão sem uma larga referência a Luís de Almeida (1525-1584), «o que inventou fazer o Hospital de Bungo», para «recolher as crianças enjeitadas, filhos de gentios que por sua pobreza tem por melhor remédio matá-los quando nascem. Elle curava sendo Irmão, por suas mãos (isto é, praticava a medicina manual, Cirurgia em) todos os doentes que alli pela fama concorriam, por ser cousa tão nova, no Japão… E tinha alli feita uma botica com tantos materiais e mezinhas, que mandava vir da China… », por via de Malaca. (Luís Fróis, Obra citada; Luís de Almeida, «Cartas» in Dom Theotonio de Bragança: «Cartas que os Padres e Irmãos da Companhia de Jesus escreveram dos Reynos de Japão & China…», Évora, 1598). Almeida criou discípulos europeus e japoneses. Entre os europeus destacaram-se Duarte Silva, Miguel Vaz e Aires Sanches, fundador de uma Escola de Música. Almeida deixou uma Escola Médica que formou Yamamoto Gensen, autor de um «Bangai-Shuyo», 1619, livro de Cirurgia dos Bárbaros do Sul (Namban).
Outro Jesuíta português, Cristovão Ferreira, desembarcou no Japão em 1600 e começou a praticar Cirurgia. Quando a presença portuguesa se tornou insuportável para os Senhores do Japão, Ferreira foi perseguido e torturaram-no, em 1633. Decidido a aceitar todas as provações, Ferreira resistiu ao inenarrável suplício Sakazuki, adoptou o nome Sawano Chuan, formou discípulos (Handa Junah, Sugimoto Chukei, Yoshida Ansai, Nishi Kichibei e muitos outros) e escreveu para eles um tratado de Medicina, o Oranda-jeka-shinan», que foi considerado de Oranda (Holanda) e «Namban-geka Hidensho» porque a palavra Namban, Português, Bárbaro do Sul, fora banida. (Kiichi Matsuda: The relations between Portugal and Japan, Junta Inv. Ultr. 1965).
O Almeida Memorial Center, a Oita City Medical Association e toda uma vastíssima obra de benemerências em nome de Almeida, preservam a Memória de um cirurgião que trocou a instabilidade dos negócios pela dedicação aos recém nascidos e às crianças, aos seus alunos e aos seus doentes (Alfredo Rasteiro: «Luís de Almeida (1525-1584)», Experientia Ophthalmologica (Coimbra), 1990, 16, 39-41).

O desenvolvimento de Albergaria, a partir de 1120, traduz a avaliação dos pedintes e andantes que a frequentaram.
A Medicina introduzida no Japão, em 1542-43, por um português que sempre afirmou não ser médico, continuou a tradição de bem fazer que sempre existiu. Os melhores médicos de então foram como o Mestre Nicolau,  de Afonso Eanes do Cotom, segrel na corte de Alfonso X (1221-1284), el-Sábio, avô do rei D. Dinis (1261-1325) que fundou a Universidade Portuguesa, em 1 de Março de 1290 (1328 Era hispânica):
«Mestre Nicolau, em meu entender,
é muito bom médico: não por saber
cuidar bem das gentes,
mas porque tem capelo de Medicina
e livros de Montpellier.
Sabe latim como um clérigo:
entende-o, mas não o traduz.
Traz os livros consigo:
folheia-os, como um mestre
e papagueia-os, a cantar.
Talvez não os saiba ler
mas diz quanto custavam,
e por quanto os comprou,
o sabichão das dúzias!
E lê tão bem, ou tão mal,
que o contratam reis e senhores
e sabe contar quatro, e cinco, e seis,
da astronomia que aprendeu.
E mais vos quero dizer:
é melhor consultá-lo a ele, que a mestre André,
que no outro ano morreu.
E outras Artes saberá melhor
que estas todas de que vos falei:
diz das aves o mesmo que eu:
que as fez Deus;
e dos instrumentos diz com razão:
que produzem som
se os souberem tocar».
Atento às informações colhidas no vasto mundo, Mendes Pinto soube utilizar «um pau cuja água curava», identificou-o sumariamente, e descreveu os seus efeitos, como se fosse um médico.  O texto de Pinto sugere que tenha usado Raiz da China (Radix sinarum, Smilax china L.), mezinha conhecida dos portugueses desde 1535, trazida até à Índia por mercadores chineses que a comiam, como nós os nabos (Garcia d’Orta, 1563). Servia para tudo: curava o morbus gálico, as dores, e a impotência funcional da gota. Depois, olhos ávidos abertos ao mundo, desenrascado e hábil, Pinto, que aprendera, com os portugueses, na Índia, a lidar com feridas por armas de fogo mostrou que, nesse campo, se antecipava a Ambroise Paré (1510-1590), Pai da Cirurgia. Pena é que «Peregrinaçam», 1614 seja um livro póstumo.
Nas viagens iniciais ao Japão, e ao resto do Mundo,  o principal desafio colocado aos estudiosos é o de sabermos como foram vencidas as enormes carências alimentares, e vitamínicas. Durante os quatrocentos anos que se seguiram, depois da primeira viagem ao Japão, os europeus desconheceram o Ácido L-ascórbico e, embora pudessem saber que uma viagem a Angola demoraria tempo suficiente para a manifestação do «mal de Loanda», ignoraram os «pipinos laranjas limões e cidras» da carta que D. Manuel enviou para Roma em 28 de Agosto de 1499, não valorizaram o «aloes socotorino» que os portugueses tentaram monopolizar em 1506 (Andres Laguna: Materia Medicinal, 1555) e omitiram a oferta do cacto que Oda Nabunaga (1568-1582) cultivou no seu jardim, testemunho tardio de Kaibara Maken: «Nakayamadenshinrokubusank», Haojn, 1688 (referência: Internet japonesa, tradução de Yasuko Machida Garcia). Hoje sabemos que os frutos das Opuntias são extremamente ricos em Vitamina C, muito mais que os frutos da laranjeira que Arichandono escolheu como alvo no dia azarado em que  destruiu a espingarda de Fernão Mendes Pinto.
Diz-se que os navegadores portugueses tinham bases navais secretas (Eric Martini: 38th International Congress History of Medicine, Istambul, 2002; Lancet, 2003, 361 (9367): 1480) e nada sabemos da eventual utilização do suco das folhas do Agave americano L., parecidas com as do Aloes socotorino, Aloe vera L., que podem ter fornecido «le juz des feuilhes d’un arbre», planta dizia-se árvore, que tão útil se mostrou em 10 de Maio de 1534, nos males da boca e inchaços das pernas dos companheiros de Jacques Cartier (1491-1557) na viagem ao Rio São Lourenço, no Canadá. Do Aloe vera dizia Leonhart Fuchs: «Alloen ist auch gut zu den geschwollen mandeln/ zanfleysch/ vnnd allen geschwaren/ im mund mit wein vnnd honig vermischt/ gehalten» (New Kreuterbuch, Basell, 1543), corroborado por Andres Laguna: «Gargarizado com miel y com vino, es vtil à las agallas, a las enzias, y a todas aquellas partes que en la boca se encierran » (Pedacio Dioscorides, Antuérpia, 1555). Amato Lusitano não ia tão longe: «… sanat vlcera quae aegrè ad cicatricé produci possunt, & maxime que in ano sunt, & pudendo: … nec nõ eas quae in ore, naribus, oculisq; …» (Dioscoridis Anazarbei de medica materia, Lib. III, De Aloe, Enarratio XIII, º 456, 1588)
O termo alemão «zahnfleisch» (zanfleysch), «carne junto ao dente», o vocábulo inglês «gum», a expressão castelhana «enzias», a palavra portuguesa «gengiva» e o latino «os, oris», correspondem-se.
Em 1604 o boticário Jean Mocquet (1575-1617), do «Cabinet des Singularités du Roi» Louis XIII, precursor do «Muséum d’histoire naturelle» que teve inicio em 1635, autor das «Voyages en Afrique, Asie, Indes orientales et occidentales», 1617 trouxe Aloes americano, do Maranhão para França, e vendeu-o a boticários de Tours, Poitiers, Angers, Fontenay e La Rochelle por bom preço, a cerca de 10 a 20 soldos por onça (Dejanirah Couto: Voyage à Mozambique & Goa. La relation de Jean Mocquet (1607-1610), prefácio, Ed. Chandeigne, 1996).
No México, os sucos de Agaves  são comercializados e as Opúncias  são símbolo, na Bandeira. Nada sabemos da utilização intencional do suco das «folhas» das piteiras Agave, dos «figos» da Opúncia, dos pimentos picantes, tomates, azerolas,… com elevado teor de Vitamina C, na prevenção e no tratamento do Escorbuto.
É provável que folhas e frutos tivessem sido muito desejados, tal como aconteceu com as «laranjas que muito desejavam os doentes» nas frotas de Vasco da Gama (1497-99 e 1502) e na armada de Cabral (1500). Ulysses G. Meneghelli afirma: «Lamentavelmente,(os portugueses) não deram conhecimento deste facto à ciência oficial», em «Portugueses da Frota de Cabral em viagem à Índia, em 1500, confirmam que o escorbuto podia ser curado com laranjas», Jornal Brasileiro de História da Medicina, 2004, 7, supl. 1, p. 43).
Recordamos o Piloto da armada de Vasco da Gama (Alvaro Velho?) que referiu as «laranjas que muito desejavam os doentes» e ficamo-nos por aí. Atribuimos ao acaso o exclusivo da infestação das Ilhas Atlânticas, do Norte da África, da Bacia do Mediterrâneo, e também da longínqua Tanegaxima, por Agaves e Opuntias e não procuramos explicações, por exemplo, para o capítulo «Von Indianischem Pfeffer» do «New Kreuterbuch», 1543 de Leonhart Fuchs (1501-1566), reeditado por Taschen em 2001 nem para a espantosa mistificação/ informação/ desinformação que os Pimentos americanos picantes, Capsicum annuum L. geraram quando foram descritos, desenhados, e apresentados, como «Piper Hispanum/ Piper Indianum/ und Piper Calecuthicum» numa confusão de Silíquas (que eram Alfarrobeiras), Piperitis, Piper caninum, Cardumenum, Capsicum e Grana paradisi, num tempo em que o termo «Índia» apenas significava «qual quer terra q estaua longe, e era inota» (Garcia d’Orta: Coloquio 34, das mãgas).
Enquanto a verdadeira Pimenta, Piper nigrum L., da Ásia, nunca se desenvolveu em Portugal, os Pimentos da «America» espanhola, e do Brasil, proliferaram na Europa do Norte, três variedades no livro já citado de Fuchs (1543), quinze variedades no livro de Basilius Besler (1561-1629): «Hortvs Eystettensis», 1613, ed. Taschen, 2000, cinco no livro de Frei Cristovão de Lisboa. Os Pimentos picantes americanos prejudicaram o monopólio da Pimenta quando proliferaram na Europa, África, Ásia, Índia e Japão. Tiveram grande aceitação como elementos decorativos, modificadores do sabor, e em mezinhas, para as gengivas.
Hoje apreciamos o elevado teor em Vitamina C dos Capsicum annuum L., reconhecemos a existência de estômagos muito sensíveis à capsicaína, e ignoramos a observação de Leonhart Fuchs, que nada sabia de Vitaminas: «Erist den zanen vnd dem zanfleysch nuzlich / dann er verzert alle bose seuchtigteyt darin / vnnd wert das da tein seule werd». Werner Dressendorfer, comentador de Fuchs, dirá: «Medicinally, «Indian» pepper was seen as the equivalent of hot pepper. Although the scientific content of the fruit was not understood in those days, Fuchs’s passing remark that pepper provides nourishment for the gums could be a reference to the vitamine C content of the fruits, which cared scurvy, whose symptoms include the receding of bleeding gum tissue.» ( in L. Fuchs: «Novo Herbário», Taschen, 2001)
O século de presença portuguesa no Japão (1542-1640), designação sugerida por «The Christian Century in Japan, 1549-1650», 1951 de Charles Ralph Boxer, foi marcado por Homens que procederam como Médicos, Fernão Mendes Pinto, Luís de Almeida, Aires Sanches, Sawano Chuan (Cristovão Ferreira)…, pela introdução de mezinhas e óculos da China com escala em Malaca e Macau, por óculos europeus de lentes côncavas como aqueles que usava o «coatro olhos» Padre Cabral, S.J…
Os óculos foram um dos motores civilizacionais que fizeram avançar o Mundo. Leia-se David S. Landes: «The Wealth and Poverty of Nations», 1998, «A riqueza e a pobreza das nações», Gradiva, 2002, página 49.

No Japão do século XVI os portugueses não se limitaram a transportar genes de doenças raras que lá chegavam pela rota da seda, a vender sedas e a comprar prata, a  exibir e a oferecer espingardas.
Divulgaram formas correctas de tratar feridas provocadas por armas de fogo e por deflagração de explosivos, mostraram novas formas de lidar com os recém-nascidos, com os mais jovens e com os mais desprotegidos, introduziram novos objectos de uso comum e ofereceram plantas desconhecidas com aplicações várias: pimenteiros picantes, cactos, piteiras… e levaram até ao Japão coisas que os Japoneses recordam, sem embaraço: Medicina e Cirurgia europeias, … lentes, óculos, Óptica, … e também Arigatô, marca da primeira globalização.
Ordem dos Médicos, Aveiro, 23 de Outubro de 2007

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Figuras

Em termos metodológicos recorremos à análise de conteúdo, utilizando para recolha de dados a edição portuguesa das Sete Centúrias de Curas Medicinais, publicada pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, em 1980.

Verificámos que a temática referente ao foro da sexualidade representa uma percentagem considerável dos casos clínicos. No domínio das patologias, o autor identifica algumas doenças do âmbito da sexualidade, deixando-nos um importante contributo a nível da patologia, sintomatologia e terapêutica dessas doenças. Constatamos ainda que a censura exercida refere-se principalmente a afecções do foro da ginecologia, reprodução e sexualidade.

O XV Congresso Internacional de Medicina e o Centenário do Edifício da Escola Médico Cirurgica de Lisboa

Quando, em 1903, no Congresso de Madrid, ficou decidido que o XV Congresso Internacional de Medicina se realizaria em Lisboa, Miguel Bombarda, que aceitara o cargo de o coordenar como Secretário Geral, colocou desde logo como condição que o novo edifício da Escola Médico Cirúrgica de Lisboa estivesse pronto para acolher o evento. Telegrafou para Lisboa e obteve do governo a garantia necessária, só depois aceitou o cargo. Lisboa candidatou se à organização e ganhou a incumbência, mas o percurso de 3 anos entre os Congressos não foi nada fácil. A todo o momento surgiram problemas, monetários e estruturais, para levar avante a construção da Escola, em Santana.[…]

Lisboa, Junho de 2006
J.L.Doria

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Congresso_de_1906