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Tratamento endovascular do AVC isquémico agudo: Como e por quem?

Parecer do Colégio de Especialidade de Neurorradiologia relativamente à exposição da « Tomada de posição por Consenso da Cardiologia de Intervenção Nacional sobre a Intervenção Endovascular na Via Verde do AVC » (APIC)

 

 

 

Quero, antes de mais agradecer a preocupação de tão distinta área profissional (APIC) para resolução de problema assistencial do AVC agudo, contudo :

 

 

Enquanto possa parecer de boa intenção e altruismo tentar tratar o AVC isquémico agudo por um grupo de colegas de outra especialidade sem qualquer formação na área das Neurociências, nomeadamente na de Neurorradiologia de Intervenção (NRI), só por ironia e desconhecimento poderemos aceitar a hipersimplificação do método exposta pelos referidos colegas.

 

 

A razão para iniciar este tipo de terapêutica em hospitais centrais  com profissionais diferenciados advém de todo um conjunto de estruturas de suporte e áreas de diferenciação nas Neurociências em contínuo, desde o diagnóstico até à reabilitação.

 

 

Não basta ter disponibilidade e boas intenções !

 

 

Lembro que o treino em NRI pressupõe a formação de 2 anos adicionais após a formação de 5 anos em Neurorradiologia Diagnóstica , tal como a Cardiologia de Intervenção segue os mesmos passos (Cardiologia Diagnóstico + 2 anos de Intervenção).

 

 

Será que a Cardiologia de Intervenção reconhece à NRI habilitação e idoneidade para a efectuar Cardiologia de Intervenção ? Abordamos um número muito superior de patologias por via endovascular e cateterizamos um número infinitamente maior de vasos com elevada reactividade e fragilidade comparativamente às coronárias. Neurónio e miocito são inequivocamente diferentes !

 

 

Saliento  adicionalmente e para que fique claro que a Cardiologia não dispõe de :

 

 

1– Formação nas áreas básicas das Neurociências

 

 

2– Capaciadade de avaliação neurológica vascular e selecção dos pacientes para qualquer terapêutica endovascular

 

 

3– Capacidade de avaliação dos estudos imagiológicos não invasivos e minimamente invasivos funcionais

 

 

4– Capacidade de identificar outros síndromes clínico/imagiológicos que possam simular AVC

 

 

5–  Avaliação neurológica evolutiva

 

 

6– Conhecimento das opções terapêuticas e material mais adequado para cada situação

 

 

7– Capacidade para resolução de complicações durante os procedimentos endovasculares

 

 

 

 

As artérias cerebrais não são apenas « mais umas artérias a jusante das coronárias ».

 

 

 

Alguns dados estatísticos :

 

 

• Verifica-se em Portugal cerca de 20.000 a 25.000 AVC/ano

 

 

• 80% são isquémicos o que perfaz cerca de 16.000 a 20.000/ano

 

 

• Destes apenas cerca de 15% a 20% será  de grandes vasos (dependentes de NRI), o que representa cerca de  2.400 a  3.500/ano

 

 

Nos países com estrutura organizada, experiência comprovada de anos e optimização de rede de recursos, pré e intrahospitalar, consegue tratar atempadamente (por diversas variáveis) apenas cerca de 20% dos casos, o que representa na realidade nacional cerca de 480 a 700 casos/ano.

 

 

Do exposto pode-se depreender que o « alvo » de casos a tratar a partir do corrente ano de 2016 em Portugal pelas Unidades Metropolitanas será o valor supra-referido e que, já em 2015, sem estrutura organizada 24h/7dias na semana, foi superior a 300.

 

 

Estamos cientes que a capacidade optimizada dos grupos de NRI existente nas unidades hospitalares centrais poderá efectuar a curto prazo um número de actos terapêuticos bem superior ao alvo desejado, sem ter de submeter a população nacional a soluções de recurso subóptimas provenientes de outras especialidades e que possam pôr em causa a segurança dos utentes.

 

 

 

Melhores Cumprimentos

 

 

Presidente do Colégio de Neurorradiologia

 

 

João Lopes dos Reis