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Setúbal: anos de promessas e degradação

Preocupado com a degradação dos cuidados prestados à população por falta extrema de recursos humanos, nomeadamente de médicos especialistas, o bastonário Miguel Guimarães tem visitado o Centro Hospitalar de Setúbal por diversas vezes nos últimos anos, demonstrando o seu apoio aos colegas. A cada visita a Ordem dos Médicos, através da intervenção do seu bastonário e do Conselho Regional do Sul da OM, tem alertado a tutela para a falta de segurança clínica que se vive nesse hospital assim como para a degradação das condições de formação pós-graduada dos médicos por falta de especialistas. São anos de pedidos e promessas de requalificação do hospital, de obras e ampliação das instalações e de criação de condições para agilizar a contratação de médicos especialistas para o quadro e para garantir a sua permanência em Setúbal.

Mas, apesar de todas essas promessas, chegamos a setembro de 2021 e encontramos uma urgência sobrelotada, com várias dezenas de macas nos corredores, com doentes que esperam e, tantas vezes, desesperam por um lugar numa enfermaria; com médicos em burnout e a perder a esperança porque – numa tentativa de cuidar da sua população – trabalham muito para além do que é exigível, em equipas desestruturadas, para assegurar escalas – incluindo a urgência onde 50% dos profissionais são contratados através de empresas. E mesmo com todo esse esforço, esses médicos não estão a conseguir manter os níveis de qualidade daquela que é a base de todo o sistema de saúde: a formação dos internos. “Para o ano não vou aceitar nenhum interno pois não temos médicos especialistas para os ensinar”, explica-nos um dos profissionais deste hospital.

Ouvimos ainda relatos de médicos que definiram “prazo de validade” para este SNS e que desabafam: “ou a situação melhora ou desisto e vou-me embora”, num claro grito de alerta de quem é um defensor do serviço público mas já não tem mais para dar. Sucedem-se esses apelos, já desesperados, pela contratação de mais especialistas para o quadro, em quase todas (se não mesmo todas) as especialidades, não hesitando em confessar que as propostas do setor privado e de hospitais estrangeiros surgem com muita frequência.

Mas a tutela continua na fase das promessas e o Hospital de São Bernardo vai definhando dia a dia sem que nenhuma medida concreta avance. Em agosto, sem conseguir garantir as escalas da urgência obstétrica, nem sequer com recurso a “tarefeiros”, o diretor desse serviço demitiu-se. Na verdade, como foi evidenciado, o recurso a esse tipo de contratação deveria ser isso mesmo: apenas uma solução de recurso e nunca a regra. Com essa solução, asseguram-se as escalas mas não se garante trabalho de qualidade e em equipa. “Esses colegas, além de serem muitas vezes menos qualificados, não trabalham em equipa”, lamentam. “Na marcação de férias, esses colegas não se coordenam connosco; limitam-se a ir de férias, independentemente das necessidades dos serviços”, exemplificam para que se perceba a impossibilidade de gerir equipas sem vínculo à instituição.

Só a questão da requalificação de acordo com a diferenciação que a unidade tem representaria milhões de euros em financiamento que não chegam a esta unidade e que poderiam ser investidos na criação de condições de progressão na carreira, formação, contratação…

Ao longo dos últimos 2 anos, com a situação a agravar-se, o bastonário já reuniu várias vezes com os colegas desse hospital, com o secretário de Estado, escreveu à ministra da Saúde, falou com o conselho de administração do Hospital e escreveu à própria comissão parlamentar de Saúde, pedindo que se resolvam estes problemas “de uma vez por todas”, sempre alertando que instalações não chegam, é preciso médicos especialistas em número suficiente sob pena de deixarmos de ter capacidade formativa… É que um hospital sem internos é um hospital sem futuro e, em Setúbal, há especialidades em que todos os especialistas do quadro estão a chegar à idade da reforma, pondo em causa a continuidade dos serviços.

Nesta visita, que teve lugar dia 20 de setembro, a comitiva da Ordem dos Médicos incluiu ainda o presidente do Conselho Regional do Sul, Alexandre Valentim Lourenço, e o presidente do Conselho Sub-regional de Setúbal, Daniel Travancinha. Esteve igualmente representada a FNAM, com a presença de Jorge Espírito Santo que manifestou aos colegas o apoio dos sindicatos.