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Ser “Interna de Família”

Autora: Mafalda David, Médica Interna do 4º ano de Formação Específica em MGF (USF Nova Via)

 

Quase a terminar os 4 anos de internato na especialidade de Medicina Geral e Familiar, faz sentido fazer um balanço final desta “caminhada”. É tempo de olhar para trás e refletir sobre a evolução das minhas competências. É o momento de constatar que a teoria e o conhecimento nos apetrecham para o desempenho profissional, mas é a aprendizagem resultante do relacionamento humano e do contacto com os casos reais que nos consciencializam do papel relevante desta profissão. É esta “caminhada” de quatro anos que antecede a minha entrada na vida profissional independente. Inspirada pelo poeta castelhano António Machado cito “Caminante, no hay camino / se hace camino al andar”.

Este foi, sem dúvida, o período mais enriquecedor de todo o meu percurso profissional, onde os desafios se tornaram maiores, e ainda maior a gratificação de os conseguir ultrapassar. Os primeiros desafios passaram pela integração na equipa, pela adaptação ao funcionamento da USF, rotina diária de um médico de família e abrangência das queixas que os utentes nos apresentam. O facto de uma parte das queixas dos utentes serem pouco específicas, muitas vezes condicionadas por problemas sociais, e os quadros clínicos nos serem apresentados numa fase inicial, dificultam o raciocínio diagnóstico, principalmente para um jovem médico de família.

Também nos primeiros anos de internato, senti a estranheza dos utentes ao receberem mais uma interna em formação. Muitas foram as vezes em que ouvi “a minha médica não está?” ou “estou mais habituada com a minha médica porque me conhece melhor”. A pouco e pouco fui conhecendo o quotidiano dos utentes e das suas famílias e ganhando a sua confiança, até ao dia em que nos assumem como a “médica interna” de família, parte integrante da equipa de saúde, e nos reconhecem competências.

Paralelamente à aquisição da autonomia e responsabilidade na realização das atividades assistenciais, senti que fui conseguindo construir uma boa relação médico-doente com os utentes e suas famílias. O poder integrar toda a informação social e familiar e correlacioná-la com os achados clínicos, é de facto uma das principais vantagens da especialidade de Medicina Geral e Familiar. Outra vertente que me cativou foi poder seguir um utente desde a pré-conceção, período pré-natal e acompanhá-lo no seu crescimento. Esta foi das experiências mais gratificantes que vivenciei ao longo destes anos. Também tive oportunidade de acompanhar a minha orientadora de formação na realização de domicílios a utentes em fim de vida e necessitados de cuidados paliativos e, posteriormente, apoiar no luto os restantes membros do agregado familiar. Gradualmente comecei a sentir o que é, de facto, fazer a gestão da saúde e da doença do utente, apoiando-o em todas as fases e visando sempre o seu melhor interesse.

A par de toda a construção da própria rotina de trabalho, tal como a gestão do tempo de consulta e aquisição progressiva de autonomia na resolução dos problemas, existe a vertente curricular inerente a qualquer interno em formação. Nem sempre é fácil conciliar estas duas componentes formativas, sendo que ambas se tornam mais exigentes à medida que o internato avança. No entanto, elas vão-se complementando: no primeiro ano, a realização do estudo da comunidade e caracterização da unidade de saúde onde trabalhamos ajuda-nos a entrar neste novo “mundo” da Medicina Geral e Familiar; no segundo ano, a realização das avaliações familiares funcionam como uma forma de nos aproximarmos das famílias, de percebermos como é que as histórias de vida dos utentes podem refletir-se na sua saúde e que rede de apoio familiar e económico é que cada um deles tem; no terceiro ano, já conquistamos a autonomia necessária para refletirmos sobre a nossa prática com o estudo da consulta e para estudarmos a lista de utentes que temos vindo a observar de forma a gerirmos a nossa prática clínica e adequarmos os cuidados oferecidos à lista que temos. No quarto ano, iniciamos a fase final da nossa formação, tentando que a nossa prática clínica diária seja progressivamente mais semelhante ao que será enquanto especialistas. É nesta fase que começamos a acompanhar os utentes “mais complexos” – quer seja em termos de multimorbilidades, quer em termos de relação médico-doente na consulta. Foi também neste período que senti que seria importante contactar com uma realidade diferente daquela em que realizei a minha formação. Assim, realizei um estágio de duas semanas em Cabo Verde. Esta experiência permitiu-me melhorar a capacidade de adaptação a situações em que a ação médica se desenvolve com muito poucos recursos.

Comecei este novo capítulo da minha vida profissional com um misto de receio e expectativa. Lentamente fui “entrando” nas vidas dos utentes que tive oportunidade de observar e tive a certeza que fizera a escolha certa: a Medicina Geral e Familiar era, definitivamente, a minha especialidade! Olhar para lá da máscara dos sintomas que esconde frequentemente vidas solitárias, perdas irreparáveis e angústias escondidas é um desafio que me apaixona nesta profissão.

Este processo de descoberta foi possível graças à ajuda dos profissionais com quem trabalhei e também dos utentes que são o estímulo constante à aprendizagem e ao meu crescimento como médica e ser humano. Sinto-me preparada e com vontade de passar de “interna” de família para “médica” de família, e abraçar esta nova etapa com a humildade e dedicação que ela exige, sabendo porém, que novas angústias e desafios surgirão: um novo local de trabalho, uma nova comunidade, uma nova lista de utentes, uma nova rotina…