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Psiquiatria Multifacetada

Autora: Mónica Silveira – Médica Interna de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar


| Resumo
Os estudos epidemiológicos mais recentes demonstram que as perturbações psiquiátricas se tornaram a principal causa de incapacidade e uma das principais causas de morbilidade nas sociedades atuais. Estas patologias apresentam uma posição de destaque ao nível dos cuidados de saúde primários, quer pelo aumento da sua prevalência quer pelo estigma a elas associado. Na prática clínica diária em MGF os doentes questionam de uma forma mais frequente e deixam de ter vergonha das suas queixas e diagnósticos. Por todos estes motivos é fundamental que o Médico de Família mantenha atualizados os seus conhecimentos na área de Saúde Mental e ao nível das principais doenças psiquiátricas existentes na comunidade envolvente, permitindo a prevenção, o diagnóstico e tratamento dos doentes com essas patologias, bem como a referenciação em tempo útil daqueles que carecem de cuidados mais específicos por parte de Psiquiatria.

Por outro lado, a relação entre muitas patologias psiquiátricas e problemas sociais, é um alerta para a implementação de medidas de prevenção e de apoio disponíveis. No âmbito do Estágio obrigatório de Saúde Mental surge a importância de tecer considerações sobre esta temática.

A Psiquiatria é, por definição, a área da medicina responsável pela pesquisa e tratamento da doença mental, cujo objetivo é prevenir, diagnosticar, tratar e reabilitar os distúrbios da mente. Apesar do senso comum ainda achar que esta área trata “malucos”, o que é facto é que somente no século XIX as perturbações mentais começaram a ser tratadas cientificamente como doenças. Até então, pessoas que apresentavam doença mental eram trancadas em “manicómios” e recebiam diferentes tratamentos, com o objetivo de os trazer de volta à “razão”.

Se pensarmos um pouco no conceito de Saúde que está definido pela Organização Mundial de Saúde: “Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doença ou incapacidade”, isto demonstra que é necessário reunir uma série de características para considerar que qualquer um de nós é física e mentalmente saudável. Por outro lado, importa salientar que saúde também tem a ver com a capacidade de lidar com as adversidades, de inovar, com a forma de lidar com o mundo perante diferentes estados e acontecimentos.

Durante a minha breve passagem por esta área, em 2 meses no estágio de Saúde Mental, tive oportunidade de me aperceber que a realidade desta especialidade está, nos dias de hoje, um pouco distante dos conceitos antigos. Na verdade, um “Hospital Psiquiátrico” não é um sítio isolado, para onde vão aqueles que atravessaram a ténue linha entre a saúde e a doença mental, mas sim um local onde a partir de uma recuperação adequada, se acredita fazer progressos reais na vida de alguém. O doente mental não é separado da realidade, existindo progressivamente um objetivo de integração social dos doentes.

Por outro lado, os números não enganam em relação ao envelhecimento global da população, sendo também na Psiquiatria notável esta evolução. Por exemplo, ao nível do internamento existem cada vez mais doentes internados com idades superiores aos 65 anos, por variados motivos, como S. Depressivos, Perturbações Delirantes ou Síndromes Demenciais. Este facto origina uma série de questões quer a nível social quer a nível médico. Se por um lado são doentes com pluripatologia, ou seja, além da perturbação mental apresentam uma série de comorbilidades médicas, como diabetes, hipertensão ou patologia osteoarticular, estando para isso plurimedicados, obrigando a uma grande capacidade de gestão por parte da Psiquiatria, Médicos e Enfermeiros. Por outro lado, a nível social, são doentes vulneráveis, muitas vezes dependentes de terceiros, como de filhos, netos, que por sua vez apresentam uma vida pessoal assoberbada de tarefas e responsabilidades que muitas vezes acaba por os “desresponsabiliza” do cuidado dos seus pais e/ou avós. Estes doentes acabam por ficar a cargo da boa vontade da equipa Médica e Assistentes Sociais na procura de apoios, sendo muito complicada a gestão social com as famílias, pelas mais variadas razões! O surgimento de doença mental na população mais idosa e as suas consequências representam um desafio para os profissionais de saúde e principalmente para as famílias, que necessitam de ajustamentos para enfrentar as eventuais dificuldades que surgirão no seu quotidiano. Podemos referir que cerca de metade dos doentes internados são casos sociais a aguardar resolução, o que para um “Hospital Psiquiátrico” está, sem dúvida, muito distante dos conceitos antigos. Podemos salientar 3 casos existentes neste momento no internamento: A Sra. M.C. com diagnóstico de entrada de Psicose Delirante e a D. M.A. com um Síndrome Demencial. Atualmente estas 2 Senhoras já orientadas a nível Psiquiátrico, encontram-se há meses internadas, a aguardar uma orientação do seu caso social, que ninguém consegue dar resposta.

Por fim não podia deixar de focar as semelhanças entre a especialidade de Psiquiatria com a Medicina Geral e Familiar, no sentido de ambas prestarem cuidados a um indivíduo tendo em conta o seu contexto familiar, social e laboral. A gestão da doença mental e comorbilidades médicas efetuadas pela Psiquiatria são também efetuadas diariamente na Medicina Geral e Familiar. Recentemente, estudos epidemiológicos demonstraram que os problemas de saúde mental são a principal causa de incapacidade nas sociedades modernas e uma das principais causas de morbilidade. Deste modo, é necessária a integração dos cuidados de saúde mental no sistema geral de saúde, tanto a nível dos cuidados primários, como dos hospitais e cuidados continuados, de modo a facilitar o acesso das populações e a diminuir a institucionalização de doentes. Foi com objetivo de ultrapassar estas carências que se criou o Plano Nacional de Saúde Mental, para garantir a toda a população portuguesa o acesso a serviços habilitados na promoção de saúde mental, na prestação de cuidados de qualidade e facilitar a reintegração e recuperação das pessoas com perturbações mentais. 1

Este é hoje um dos importantes desafios com que se defrontam Médicos de Família e Psiquiatras, resta ainda um longo caminho a percorrer para melhorar e evoluir na articulação entre a Psiquiatria e os Cuidados de Saúde Primários.

Referências:

1 COORDENAÇÃO  NACIONAL  PARA  A  SAÚDE  MENTAL  (2008).  Plano  Nacional  para  a  Saúde  Mental 2007-2016.  Resumo  Executivo.