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O Médico de Família fora de portas

Autor: Constança Oliveira,

Médica Interna do 4º ano de Formação Específica em MGF (USF da Barrinha)

 

Resumo: A actividade do Médico de Família é diversificada e abrangente. Não se baseia apenas em medidas de tratamento mas assenta sobretudo, e cada vez mais, em medidas preventivas. Um grupo onde é fundamental intervir é o dos adolescentes mas existe alguma dificuldade em alcançá-los. Com este artigo pretende-se apresentar a perspectiva de uma abordagem a este grupo.

 

O Médico de Família é um médico que tem uma visão privilegiada sobre o utente, na medida em que o enquadra num contexto socio-económico-cultural e familiar, permitindo uma relação médico-utente mais próxima, potenciada pela possibilidade de vários contactos ao longo do tempo. Tem a vantagem de assistir ao nascer de famílias e, por vezes, à sua desconstrução. Acompanha um casal quando este expressa vontade em ter filhos e acompanha o crescimento dos mesmos ao longo dos anos. Este seguimento da família e da descendência é inicialmente mais intenso, pelas necessidades inerentes ao desenvolvimento infantil nos primeiros anos de vida, mas torna-se mais frustre mais tarde.

E é na fase da adolescência que é mais difícil manter a relação. Se saudáveis, os adolescentes recorrem pouco à consulta, apesar de todas as tentativas que possam ser feitas. São um grupo que, pelas suas próprias características, não sente necessidade nem compreende a importância da prevenção. A adolescência é uma fase de novas experiências e em que podem ser iniciados comportamentos que se poderão perpetuar e transitar para a idade adulta. É importante intervir nesta fase e fazer um reforço positivo para comportamentos como a actividade física e tentar alertar para os riscos de comportamentos nocivos, como o uso de tabaco e álcool.

Baseado nesta perspectiva, foi encontrada, em Esmoriz, uma forma de aproximação a este grupo: através da escola. Assim surgiu uma parceria entre a Unidade de Saúde Familiar (USF) da Barrinha e a Escola Secundária. Anualmente, e conforme o plano de estudos de cada ano, médicos internos desta unidade deslocam-se à escola para sessões de educação para a saúde, dirigidas ao 3º ciclo e ensino secundário. Assim, são realizadas periodicamente sessões sobre Métodos Contraceptivos e Infecções Sexualmente Transmissíveis e sobre Dependências.

Desde 2016, quando iniciei o internato na USF da Barrinha, tenho tido a oportunidade de realizar estas sessões, conforme disponibilidade da escola. É interessante perceber que, fora do contexto físico de uma unidade de saúde, com as nossas roupas a descoberto pela ausência de bata, no espaço que é domínio deles e não nosso, existe um quebrar do gelo. O facto de estarem vários jovens presentes e de não ser uma sessão individual, como acontece numa consulta, também facilita. Sentem-se mais desprendidos, mais à-vontade para tecer comentários e colocar questões que, de outro modo, se sentiriam menos confortáveis para fazer. As incertezas de uns esclarecem as de outros, as dúvidas de uns desencadeiam as de outros e o diálogo é facilitado, sempre num ambiente descontraído e com linguagem acessível, com recurso a analogias e exemplos da vida diária dos jovens. Os mesmos adolescentes, em consulta individual, apresentam um comportamento totalmente diferente e assumem uma postura mais tímida e fechada.

Acontece, por vezes, atendermos adolescentes em consulta de Planeamento Familiar que nos reconhecem e abordam questões que tinham por esclarecer por vergonha de colocar à frente dos colegas.

Estas sessões têm sido de grande importância e o feedback que a escola dá é esse mesmo: são imprescindíveis para esclarecimento de dúvidas que, muitas vezes, os próprios professores têm dificuldade em esclarecer e a presença de médicos na escola também torna o tema da sexualidade mais fácil de abordar, ao ser apresentado por pessoas que não são tão próximas aos jovens como os professores, apesar de estes estarem presentes durante a sessão.

Estas sessões também permitiram, em algumas ocasiões, o conhecimento do contexto familiar de alguns jovens que os próprios professores desconheciam, permitindo uma intervenção por parte destes e da escola.

A USF da Barrinha serve a população da freguesia de Esmoriz e a Escola Secundária de Esmoriz é a única escola da freguesia com ensino secundário. Assim, a parceria que se iniciou em 1992 serve os adolescentes de Esmoriz, os mesmos da Escola e da USF. Daí a sua importância prática e a necessidade que ambos os organismos sentem da sua manutenção.