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O Médico de Família e a Doença Renal Crónica

 

Autora: Débora Vieira Rodrigues, Médica Interna de Medicina Geral e Familiar, USF Fafe Sentinela.

Resumo: Portugal apresenta uma tendência de crescimento anual, relativamente à doença renal crónica. Qual o papel do médico de família na gestão destes doentes? Como gerir os anseios, dúvidas e expectativas da pessoa doente, e da sua família?

 

A doença renal crónica (DRC) afeta cerca de 6,1% da população portuguesa1 (dados de 2008), apresentando-se como um problema real de saúde pública. Tendo em conta que Portugal apresenta a maior taxa de incidência de DRC da Europa, urge a necessidade de realizar estudos epidemiológicos recentes nesta área. O envelhecimento da população e o aumento da esperança média de vida destacam-se entre os fatores que explicam o aumento da incidência de DRC em Portugal2.

Sabemos que, na qualidade de Médicos de Família, estamos na linha da frente do contacto inicial com estes doentes. O diagnóstico é, na maioria das vezes, realizado pelo Médico de Família no seguimento regular do seu doente idoso, hipertenso ou diabético.

Frequentemente, a DRC evolui de forma silenciosa até fases mais avançadas. A intervenção precoce, direcionada a populações de risco, pode evitar o seu aparecimento ou atrasar a evolução para estádios mais avançados, de maior severidade e complexidade de tratamento. Pelo exposto, reveste-se de extrema importância o controle rigoroso dos fatores de risco cardiovasculares, bem como o cumprimento dos alvos terapêuticos indicados em cada doente. Contudo, a pedra basilar no sucesso terapêutico é o envolvimento do doente na decisão terapêutica e a responsabilização do mesmo na obtenção de resultados, fomentando assim o “empowerment” do doente.

A evolução da doença renal crónica para o estádio 5 com início do tratamento de substituição da função renal implica, invariavelmente, mudanças no quotidiano dos nossos doentes, na sua imagem corporal, na sua vida pessoal, familiar e profissional.

O tratamento da doença renal crónica é frequentemente encarado como uma perda de autonomia do autocontrolo, e da capacidade de gestão das atividades de vida diárias. A noção da dependência dos equipamentos médicos e da prestação de cuidados frequentes por terceiros, exige uma grande capacidade de resiliência, na aceitação desta condição. Neste sentido, e como Médicos de Família, devemos funcionar como “elementos facilitadores” na aceitação da doença, e no treino de competências adaptativas com o doente e com a sua família. O nosso enfoque deverá ser sempre o ganho de autonomia, e a defesa do papel ativo do doente no tratamento da sua patologia.

A abordagem em casal pode ter particular interesse na adaptação de ambos a esta nova condição e às alterações físicas e emocionais inerentes à mesma. A avaliação familiar e integração no contexto socioeconómico é uma mais-valia nestes doentes, pois permite avaliar os recursos disponíveis na gestão das necessidades quotidianas. A sensação de “normalidade”, na rotina da pessoa doente, contribui para o seu bem-estar e ajuda a ultrapassar a adversidade que enfrenta.

O médico de família deve dispor de flexibilidade no horário da consulta, aumentando a acessibilidade a este grupo de risco. Deve ainda fomentar o cumprimento das restrições alimentares, incentivar a atividade física, e estar disponível para quebrar os mitos associados a esta condição.

 

Referências bibliográficas

1.      Prevalence of Chronic Kidney Disease and Associated Risk Factors, and Risk of End-Stage Renal Disease: Data from the PREVADIAB Study. Vinhas J. et al. Nephron Clin Pract 2011;119:c35–c40.

2.      Kidney Health for Life (KH4L). Chronic Kidney Disease Multinational Inventory. Collaborative network of opinion leaders and national society and ISN leaders from each country/region identified based on the ISN/ERA-EDTA websites March 31, 2014.