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Autor: Isabel Junqueiro, Médica Interna no 4º ano de Formação Específica em MGF, USF Barão Nova Sintra (ACES Porto Oriental)

 

À luz da ciência conseguimos chegar a diagnósticos, encontrar a ferida mais recôndita do corpo ou da alma e se, por vezes isso nos faz sentir heroicos, por outras pode deixar-nos completamente desarmados frente aos doentes. Partilho uma experiência vivida por mim que me assolou de emoções e dúvidas.

Passou-se em consulta aberta. Chamo a Dona M. uma senhora de 90 anos, excelente estado geral e ânimo a transbordar. Uma utente bem conhecida da consulta, mulher de trato simples, magra, com marcada pronúncia do norte, saia travada e soquete. Pele que denuncia os anos de trabalho ao sol e sentido de humor que enchem o consultório de energia. Queria vitaminas, sentia-se um pouco mais cansada do que o habitual e também achava que estaria mais magra. Nem mais um sintoma. Foi para a balança, constatou-se a perda de 4 quilos. Ao exame físico apercebo-me de um abdómen volumoso nos quadrantes inferiores que caía como avental num corpo emagrecido. A doente desvalorizava esta característica anatómica, dizia que sempre tinha tido aquela barriga. À palpação abdominal não restaram dúvidas, presença de líquido ascítico, fígado com dimensões aumentadas. Havia algo para desvendar. A doente não tinha queixas nenhumas, apenas a astenia. A tomografia computadorizada foi pedida. Na consulta seguinte a doente expectante apresenta-me o exame: massa neoformativa no pulmão próximo do pericárdio, múltiplas lesões metastáticas a nível hepático e uma lesão neoformativa no rim direito. Nesse momento o meu mundo parou. Tinha um diagnóstico e não me senti heroica com ele. Uma mulher de 90 anos, com uma vida feliz, com alegria para dar e vender estava prestes a receber uma notícia que a faria desabar. Eu sabia que a partir daquele momento ela ficaria com mais sintomas do que a astenia que a tinha trazido à primeira consulta. Eu sabia que para ela o cancro seria uma maior assombração do que o cansaço que ela queria resolver apenas com vitaminas. Questionei a minha prática, se não tivesse solicitado o exame provavelmente a sobrevida seria a mesma, mas sem a dor do diagnóstico, sem a dor do “não há nada a fazer”, sem a dor do “já tem 90 anos”.

Pensei, e pensei muito seriamente em tudo. Perante diagnósticos ásperos, mesmo não tendo cura para oferecer e mesmo quando a esperança de vida nos torna passivos nos tratamentos, há ainda muito a oferecer: conforto, apoio e dignidade.

Convencida de que fazia sentido ter descoberto que aquela mulher feliz e alma leve trazia consigo uma doença grave uma doença de mau prognóstico, confronto-me com o desafio de a comunicar. E eu sabia que a forma como o iria fazer ficaria cravado na sua memoria, ou as minhas palavras, ou a minha expressão ou o meu silêncio, citando Gabriel Garcia Márquez, “A vida de uma pessoa não é o que acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda.”

De olhar vibrante e cotovelos apoiados na secretária, pergunta-me: “Então senhora doutora, que tal?”. Com toda a calma, adaptei da melhor forma a linguagem à escolaridade daquela mulher que não tinha o 4º ano completo e cuja vida tinha sido dedicada ao trabalho sempre de mãos erguidas. Expliquei que os exames apresentavam alterações que justificavam aquele cansaço. Gradualmente tornava-me mais explícita no diagnóstico e como num jogo, eu ia sentindo permissão ou não para especificar a doença que a Dona M. tinha. Depois, acabei por sugerir uma consulta acompanhada com o familiar com quem ela queria partilhar a notícia. E assim foi na consulta seguinte regressou com a neta e tornamos a falar de tudo exatamente com a mesma abordagem da consulta anterior. Foi explicada qual deveria ser a abordagem da doença tendo a doente a orientação clínica adequada.

Este caso fez-me viver a dificuldade de ter entre mãos um diagnóstico que muda abissalmente a vida dos doentes numa fase em que os sintomas se apresentam muito ténues. Enquanto médicos, mesmo sem químicos que tratem, mesmo sem bisturi que resolva temos muito a oferecer a estes doentes. A forma como comunicamos, a forma como deixamos abertas as portas do consultório, toda a farmacologia que nos ajuda no alívio da dor e no conforto e todo o envolvimento da família dão sentido a estes diagnósticos que embora quase acidentais permitem preparar um fim digno com a menor dor possível.