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Manuel Henrique Martins Ferreira Botelho(1930-1998)

    Homenagem

    O Dr. Manuel Henrique Martins Ferreira Botelho, titular da cédula profissional número 7943, nasceu em Vila Real, em 12 de setembro de 1930 e faleceu em Lisboa, no dia 7 de fevereiro de 1998.

    O Dr. Henrique Botelho, como era conhecido no meio clínico, concluiu a licenciatura em 1955, na Faculdade de Medicina de Coimbra, onde se distinguiu por ser o aluno mais brilhante da sua geração e pelas excecionais qualidades de caráter, trabalho e inteligência que, ainda estudante, lhe foram reconhecidas pelo Magnífico Reitor da Universidade, Prof. Doutor Maximino Correia.

    Declinando diversos e insistentes convites para iniciar um percurso académico na Universidade de Coimbra, ingressou no Quadro de Oficiais Médicos do Exército e percorreu todos os passos do Internato de Cirurgia dos Hospitais Civis de Lisboa, chegando ao topo da carreira em 1970.

    Como cirurgião militar cumpriu com grande nobreza duas comissões de serviço no ultramar, em Porto Amélia (Moçambique) e em Luanda (Angola). Nesta cidade, após convite, regeu a disciplina de Patologia Cirúrgica da Faculdade de Medicina e dirigiu o Serviço Universitário de Cirurgia II, cargos que cumpriu brilhantemente, com a excelência e a dignidade que o caraterizavam, durante os três anos de permanência em Angola, cumulativamente com a atividade de cirurgião do Hospital Militar Principal (HMP). Ao regressar a Portugal, em 1973, deixou um rasto de simpatia e de reconhecimento pelo elevado nível dos serviços prestados e pela capacidade académica, técnica e cientifica que pôs ao serviço da Instituição. Deixou também uma saudade imensa em todos os que tiveram o privilégio de laborar sob a sua orientação.

    De regresso a Lisboa, assumiu a direção dos serviços de Cirurgia do Hospital de Curry Cabral e do HMP, que manteve até nos deixar prematuramente. Mais tarde, entre 1983 e 1990, em acumulação com estas funções, foi convidado para Diretor do Serviço de Cirurgia do Hospital de Santa Cruz, onde montou e expandiu a cirurgia de transplante renal. Só um homem com capacidades invulgares poderia reunir as condições para a árdua tarefa de, concomitantemente, prestar serviços distintos e relevantes em três hospitais de referência, sem quaisquer exigências de interesse pessoal, demonstrando, com a sobriedade que o caraterizava, uma enorme disponibilidade, consubstanciada numa presença assídua e nas ímpares qualidades profissionais, pessoais e de liderança que possuía.

    Integrou a Comissão Instaladora do Colégio da Especialidade de Cirurgia da Ordem dos Médicos, no início dos anos 90 do século passado, e presidiu depois à Direção do mesmo durante dois mandatos, deixando a sua marca de qualidade e isenção na orientação dos trabalhos deste Colégio, que tão bem soube servir, honrar e prestigiar.

    Era um cirurgião avesso a lisonjas e a honrarias, com respeito intransigente e irrepreensível pelos valores éticos, rigorosa formação científica e humaníssima dedicação aos doentes, que ajudava com respeito e dedicação invulgares, independentemente do seu status social. Impressionava, ainda, pela simplicidade, capacidade profissional, vocação insuperável e devoção incondicional à Medicina, que viveu intensa e abnegadamente.

    Demonstrou um notável e evidente talento para a prática da sua especialidade em ambiente hospitalar, com despojamento total pelo lado material da vida, pois sentia que a riqueza de um homem está mais relacionada com o número de coisas a que pode renunciar do que com os bens que pode possuir. Na sua simplicidade, era um cirurgião e um clínico de excelência, uma figura humana única, um exemplo de autenticidade, de exigência para consigo próprio e de intransigência perante comportamentos éticos duvidosos, mas complacente e generoso para com os outros. Era uma referência, desde os bancos da Faculdade.

    Fez escola em todos os serviços que dirigiu e estava sempre pronto para ajudar os colegas que se encontrassem em dificuldades clínicas e técnicas, mesmo que pertencessem a outras estruturas hospitalares. Deixou como legado um número importante de cirurgiões formados sob a sua orientação direta, que atingiram o mais alto nível da hierarquia hospitalar e universitária, que são reconhecidos entre os mais cotados no meio cirúrgico nacional e contribuem para manter viva a memória do Dr. Henrique Botelho.

    Viveu numa doação total aos doentes e às instituições. Partiu súbita e inesperadamente, no dia 7 de fevereiro de 1998, quando decorria um congresso de cirurgia em Lisboa, deixando grande consternação na cirurgia portuguesa.

    Evocamos, com o preito da mais sentida homenagem, um profissional de excelência, um cirurgião que, com justiça e indiscutível mérito, atingiu lugares cimeiros da carreira que com tanto fascínio abraçou. Mas é sobretudo o homem respeitável de princípios e valores, e de sólida estatura moral, que aqui recordamos, pela nobreza do seu carácter e pela forma invulgar como soube aliar rigor, seriedade, retidão e tolerância.

    Manuel J. Queiroz Medeiros

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