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CEOM reúne em Lisboa e aborda temas como violência, vacinação e subfinanciamento em saúde

O Conselho Europeu das Ordens dos Médicos (CEOM) reuniu em Lisboa no dia 29 de novembro. O presidente do Conselho e anfitrião desta reunião, José Santos, começou por dar as boas-vindas aos presidentes das várias organizações médicas europeias e inaugurou os trabalhos com um discurso centrado no constante trabalho da CEOM no que concerne às questões éticas e deontológicas da prática médica, da livre circulação de profissionais, dos desafios demográficos da classe e, sobretudo, consciente de dois grandes desafios que marcaram o encontro: o combate à violência e a vacinação. No que diz respeito à violência, José Santos sublinhou que a “CEOM tem liderado o processo de consciencializar os governos europeus para a necessidade de tomar medidas urgentes tendo em vista a proteção dos médicos”. A violência, tanto física, como verbal, tem aumentado nos últimos tempos. Aliado diretamente a esta problemática surge o síndrome de burnout que, esclareceu José Santos, “é só por si uma forma de violência” que afeta muitos médicos por estes dias.

Ainda nas boas-vindas a todos os participantes, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, destacou a importância da temática da violência, referindo que a agressão verbal é uma forma de violência crescente nas instituições de saúde e lembrando que os nossos profissionais de saúde, em especial os médicos, estão em verdadeira “exaustão emocional”.

Outro tema que este encontro do CEOM abordou e que o bastonário considerou fundamental foi a importância de melhorar a cobertura de vacinação, lamentando que o parlamento português tenha “aberto a porta” a terapêuticas sem validade científica. Essa é, aliás, uma área em que “pode ser desafiante e consumidora de tempo mas na qual é essencial que os médicos tenham um papel ativo”.

Em face de tão relevantes questões de saúde, Miguel Guimarães lançou o repto para que o CEOM, no final dos trabalhos, emitisse um documento intitulado “recomendações de Lisboa”, com as principais conclusões do debate e com orientações válidas a nível internacional.

Sobre a intervenção de João de Deus que incidiu sobre a falta de investimento na saúde dos portugueses, o bastonário da Ordem dos Médicos fez questão de frisar: “ouvi o nosso colega João de Deus com toda a atenção, pois este é de facto um problema fulcral. Temos falta de dinheiro no Serviço Nacional de Saúde, o que origina muitas dificuldades, por exemplo, em encetar a reforma das urgências, a recuperação das listas de espera, etc.” E, com a falta de investimento, surge a degradação das condições de trabalho e a falta de condições para o exercício de uma medicina de qualidade. “O principal problema que daí resulta é que as pessoas estão a sofrer em termos éticos porque sentem que trabalham em más condições. Nesse contexto, os médicos sentem a complexidade de assegurar a segurança clínica e receiam que possam ocorrer eventos adversos evitáveis. É preciso tomar medidas urgentes”. “

Mesmo em tempos difíceis nunca desistam do vosso papel como médicos e cidadãos”, apelou Miguel Guimarães, lembrando aos representantes internacionais presentes neste CEOM que os médicos não se podem eximir dos deveres de cidadania perante a sociedade. Recordamos que o CEOM tem como objetivo principal promover, no contexto da União Europeia, uma medicina de qualidade que respeite os interesses dos doentes.

Num dia repleto de intervenções pertinentes, a reunião do CEOM contou com intervenções ao mais alto nível europeu. Wolfgang Philipp, chefe da unidade de gestão de crise em Saúde da Comissão Europeia, demonstrou que “a vacinação é a grande prioridade” em termos de saúde pública. O representante europeu demonstro que, entre 1 de outubro de 2018 e 30 de setembro de 2019 ainda existiram 13 331 casos de sarampo na União Europeia, resultando em 11 mortes. Os dados são mais dramáticos fora do território da união. Um simples surto na República do Congo, em 2019, foi o suficiente para causas 203 000 casos, resultantes em 4000 mortes. Uma das grandes diferenças entre a disparidade dos números é a cobertura da vacinação. Como desafios atuais, Wolfgang Philipp destacou ” o aumento da confiança nas vacinas por parte da população”, “o acesso e organização”, “a gestão dos stocks” e “a falta de literacia e de consciência dos benefícios”.

No âmbito da vacinação, o presidente da CEOM, José Santos, deixou o exemplo positivo do site italiano FENOMCeO que promove exatamente a literacia em saúde. Por outro lado, como dado preocupante, retirado de alguns estudos europeus, indicou que ainda existe uma parte considerável da população a considerar as vacinas como inseguras. “Algo a que o CEOM está atento e a trabalhar para modificar, com o esforço de todos os experts na matéria”, considerou. São desafios como este que levaram a CEOM a criar a Declaração de Vacinação na reunião de Tirana e que pode consultar na página 36 da edição nº 199 da Revista da Ordem dos Médicos.

A mesa redonda sobre violência contra os médicos foi outro dos pontos-chave desta reunião. Recorde-se que o CEOM, por iniciativa do presidente José Santos, criou, em 2017, o Observatório Europeu sobre Violência contra Médicos. Roland Kerzmann iniciou a mesa com uma intervenção onde deixou clara a gravidade que os episódios de violência podem ter para os profissionais. “A violência é um fator de stress com potencial pós-traumático que afeta a mente e o desempenho da pessoa”, afirmou. “O stress de um médico é constante, muitas vezes apenas pela carga de trabalho que se transforma em burnout” e que, por consequência, tende a aumentar as probabilidades de acontecerem erros médicos. Kerzmann lamenta que ainda não se veja, na sociedade, uma atitude proativa no combate ao síndrome de burnout que é, considera, “uma patologia grave”. O paradoxo, concluiu, é que “o médico é formado para cuidado dos outros, mas muitas vezes não sabe cuidar de si mesmo”.

O psiquiatra João Redondo acrescentou que a violência contra médicos causa uma deteriorização da qualidade assistencial, tal como o próprio burnout alimentado por falta de condições de trabalho e uma carga excessiva. “Isso é paradoxal porque, ao mesmo tempo, também aumenta a violência”. João Redondo deixou um alerta: “já sabemos muito sobre a violência, mas e agora? É urgente começar a tomar ações contra aquilo que já sabemos”. Criar condições para uma “tolerância zero face à violência contra médicos” é essencial, pois estamos a falar de “uma questão de direitos humanos”.

De Espanha, através de J.R. Huerta, chegou a proposta de criar um dia “para aumentar a consciência” sobre a violência contra médicos”. “O respeito é vital na relação médico-doente e a violência quebra essa relação”, lamentou o representante. O dia 12 de março foi a data apontada para a possibilidade de virmos a ter o Dia Contra a Violência Contra Médicos.

A concluir a reunião, José Santos agradeceu a todos a presença e o empenho deixando uma mensagem de união: “as organizações médicas europeias são mais fortes quando estão unidas”.