+351 21 842 71 00

A equação da consulta atual: 7 passos e os contrapassos informáticos

Autor: Tiago Sá e Pinho, Médico Interno do 1º ano de Formação Específica em MGF (ACeS Baixo Vouga, USF Águeda + Saúde)

 

Resumo: Se em tempos a informática, como novo elemento na consulta médica, prometeu ser uma mais-valia, nos últimos tempos tem assumido um papel negativo com as suas constantes falhas, colocando em causa a efetividade dos cuidados prestados. Urge mais do que nunca, colocar o assunto em discussão.

Uma equação é composta por somas, multiplicações, subtrações e divisões. Segundo a “A consulta em 7 passos”, até então quase unânime, do Dr. Vitor Ramos cada passada balança a próxima e por aí adiante, como peças de dominó em queda numa mímica da automação.

Com a entrada dos sistemas informáticos, a fórmula figurou-se idealmente mais rápida e com menos erros para então oferecer ao doente os nossos olhos e ouvidos, guiando, de uma melhor forma, a nossa mão e pensamento. Provada está a extrema relação simbiótica entre a qualidade da saúde prestada e o tempo investido em sentir o doente. Numa obsessão desmedida pela eficiência e metrização na saúde, chegou-se ao ponto de autoflagelação. Perdem-se minutos a inserir códigos para prescrever, são implementados, de uma forma alienada, softwares em hardwares obsoletos, desconvocam-se períodos por falhas longas, amontoando-se agendamentos… quem sofre? O doente e nós médicos, e num ciclo vicioso voltam a sofrer os doentes, porque não somos iguais quando desmotivados e derreados. Estamos em contrapasso, “sofrer o oposto”, atribuída a sua relevância semântica na famosa “Divina Comédia” de Dante Alighieri. Ficamos retidos num passo da consulta, tendo por vezes que voltar atrás, subtraem-se momentos com doente, depauperamos a anamnese, pondo em causa a saúde do doente. Dividimos a nossa atenção entre erros informáticos, rodas em espirais hipnotizantes, contactos a reportar e os nossos doentes. Basta! Chega de divisões e subtrações. Vivemos no Inferno e Purgatório da “Divina Comédia”, urge mais do que nunca acompanhar e supervisionar a visão alucinada (sem qualquer conhecimento do dia-a-dia real) dos serviços que, de uma forma autoritária, entraram em contraciclo, chegando ao ponto de dizimar a efetividade dos nossos serviços. De uma informática dourada e tão bem-recebida pela sua potencialidade, como auxílio aos cuidados prestados, passamos a uma informática ditatorial, reacionária e frívola.

Sabemos que na saúde vivemos num compasso complexo, mas através da evidência sempre ritmamos a evolução, e é mais do que evidente que os sistemas informáticos nos mostram unicamente, nos últimos tempos, o seu reverso da medalha, o contrapasso.