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Ser-se diferente é ser-se racista?

Autor: M.M. Camilo Sequeira, Chefe de Serviço, aposentado, de Medicina Interna

RESUMO: Reconhecer as múltiplas expressões do racismo será uma das formas de impedir que este preconceito continue a gerar sofrimento, divisões e violência. Aos Médicos cabe um importante papel nesta aprendizagem

Durante uma parte muito significativa da minha vida incomodou-me bastante saber-me racista. Ou seja, saber que algumas pessoas, antes de por mim serem vistas como tal, tinham uma caracterização prévia: preto, chino, larila, cigano, maneta, zarolho, ai a tola ou taliban, lagarto ou lampião, caloiro (hoje) e várias outras. Até “gaja boa”, pois tal não pressupõe uma mulher bonita mas antes um objecto de prazer sem volição nem qualquer outro eventual merecimento.

Sei que as generalizações excessivas podem retirar relevo aos problemas. E por isso sei que propor esta interpretação do meu racismo implica aceitar o risco de estar a apoucar o dramático de quem o vive do lado contrário ao meu.

No entanto assumo esta generalização porque acredito que o racismo é um preconceito enraizado na nossa formação cultural que nos obriga a classificar as pessoas em função de variáveis que querem salientar o seu diferente como “confirmação” da sua menoridade em relação ao que, com igual preconceito, consideramos, sabe-se lá porquê, como “normal”.

Claro que as consequências desta diferenciação cultural são umas mais outras menos gravosas para o diferente.

Mas são-no sempre em função da importância relativa que para nós tem a competição que mantemos com esses diferentes. Sendo esta circunstância que acho ser justificação para a generalização. Exactamente como o podemos fazer em relação ao que, sendo diferente na linguagem histórica, como a escravatura e a servidão, não é o na prática. O dramático da semelhança destas duas condições permite e julgo que justifica, a sua apreciação em conjunto bem como a correcção em simultâneo do que as aproxima. A minha convicção é que se as várias formas de expressão do desrespeito pelo outro se integram numa mesma categoria a sua análise pode ser feita ao mesmo tempo e com o mesmo objectivo.

Requeiro, por isso, que aceitem esta minha generalização.

Porque o que pretendo dar a conhecer é que deixei de me preocupar com o meu racismo quando percebi que esta generalização tinha sentido e isso me permitiu aceitar que a muito grande maioria das pessoas é (de alguma forma) racista.

Ora uma característica de identidade cultural assente num preconceito generalizado a todo o tipo de aculturação não tem sentido que seja considerado um critério negativo nas relações inter-pessoais.

No entanto se esta interpretação for correcta então porque será que os apodos que referi no início deste texto são agressivos e querem ser ofensas orientadas, mais ou menos conscientemente, para fazer do outro que se pretende diferente (e que não poucas vezes nem sequer é nosso interlocutor directo) um cidadão menor?

Racistas

O dramático de se cultivar o ser-se racista é não se perceber que isso nos torna tão diferentes como o outro que ostracizamos… por ser diferente. E que o apoucamento do outro é, sempre, inevitavelmente sempre, o nosso próprio apoucamento.

Claro que a ignorância crítica nos faz acreditar que só a minoria é que se pode definir como diferente. Ou se formos ainda mais ignorantes que a própria ignorância consideraremos que o outro é diferente porque tem menos poder que o que julgamos ter (num dos racismos mais comuns o “poder” de por se acreditar que se é branco ter a ilusão de que se é civilizado).

Sem consciencializar que quer uma quer outra justificação é simplesmente um valor de tempo ou, no mesmo tempo, um valor de lugar ou de “costume”. O poder varia mesmo quando parece eterno. E quer as maiorias quer as “bizarrias” de usos e costumes são-no apenas temporariamente. Hoje bastante mais que no passado como resultado do alargamento dos contactos entre comunidades, das relações políticas e interesses económicos associados, das migrações, mas também da descoberta doutro viver que as misturas entre gentes permitem perceber e apreciar.

Claro que estas aproximações podem promover novas expressões racistas.

Mas é minha convicção que a sua continuidade as vai tornando cada vez mais ordinárias e cada vez menos geradoras de tensão. Quer porque a repetitividade do estranho o normaliza quer porque não pode deixar de ser assim se quisermos viver pacificamente o tempo curto que a vida nos oferece. De facto a História ensina-nos que não é possível manter eternamente uma determinada situação social por mais rígida e protegida que ela pareça. E que não é possível deixar de viver em interacção com o diferente e, por isso, perceber como também somos diferentes para ele. Em termos práticos, de facto, não parece ser possível deixar de perceber que a cooperação, muitas vezes a complementaridade do existir, a parceria (por exemplo, no trabalho), a partilha do espaço, do tempo e de todas as múltiplas expressões do existir com outros são absolutamente inevitáveis.

E se o preconceito não é eliminado, porque provavelmente não é eliminável, a sua associação à menoridade será (lentamente nuns casos, menos lentamente noutros) anulada. Como consequência natural de se perceber que esses contactos, talvez para surpresa de muitos, nos permitirão descobrir que o diferente é singularmente igual a nós. E será neste momento, face a esta descoberta, que a relativização do conflito rácico perderá sentido mesmo para o mais contumaz racista.

Admito que achem que confundo o desejável com a realidade. Talvez!

Mas mais uma vez a história da humanidade nos ensina que, quer com a vontade dos Homens quer contra ela, a mudança é o próprio do existir e que os conflitos, por mais dramáticos que o sejam, não conseguem existir sem limite temporal.

Cabendo-nos a todos, isso sim e porque nos vemos como civilizados, encontrar as fórmulas que auxiliem essa transformação “antes de acontecerem por as não conseguirmos evitar”.

Quotas, escolas e afins

Aprender a viver com o racismo sem confronto é um objectivo civilizacional de sobrevivência que está nas preocupações actuais de muitos mandantes da vida colectiva. Até como meio de combate à violência que, mais que menos, é marca do racismo em abstracto.

Por isso volto à generalização que iniciou este texto.

A paixão clubista parece ser uma forma de catarse do nosso tempo, com os estádios a serem os centros de culto, os jogadores os ídolos a adorar e a prática de ver o que se deseja que aconteça (ou de nem ver mas mesmo assim afirmar a verdade do que se diz sob palavra de honra) a forma de se criar identidade entre parceiros com ausência desta em relação aos outros de confissão clubista diferente.

É a normalização da violência urbana. Aparentemente aceite por todos, quiçá porque assim se desviam os cidadãos violentos, mas não só estes, de outras problemáticas sociais tidas como de maior complexidade ou que os “diferentes do mando” acham não deverem ser de seu interesse.

Mas será que a tolerância em relação a estas manifestações de religiosidade não poderá ser a porta que se abre para a expressão explícita de outras com a convicção de que serão igualmente toleradas? Sim, contra as mulheres, contra os pretos, contra os homossexuais, contra o que quer que seja que se identifique por um conjunto de atitudes que não sejam as que simbolizam a religião em que acreditamos?

Se é normal insultar as famílias, até à sua 26ª geração, do clube que marcou golos a mais em relação ao meu, porque não há-de ser normal agredir a mulher que me chateia, o judeu que ocupou o meu lugar no trabalho, o preto que veio dos confins do mundo criar grupos que não querem trabalhar, o cigano que dizem ter um primo que dizem ter assaltado uma casa que dizem que até era de um adepto do meu clube? (Exemplos estereotipados).

A forma pouco democrática como se abordam estas questões erradamente designadas como do desporto, a aparente aceitação dos custos que todos pagamos para se levarem as claques em curros formados por agentes policiais de igreja para igreja, a simpatia que se expressa, até mesmo a admiração, com os preços associados às vendas do gado artístico nunca considerando o que nesse negócio há de animalesco irracional em relação às pessoas e de potencial ilegítimo em relação à origem dos dinheiros envolvidos, é a óbvia demonstração de não se querer, de facto, regularizar a vida colectiva em função de princípios que contrariem o aparecimento e crescimento de justificações, absurdas e toleradas, para não lidarmos com o outro “como queremos que se lide connosco”.

Tem de ser na Escola, depois de ter sido em casa onde deve ser permanente, que a formação cívica se tem de iniciar. Com o curriculum desta ao nível da Matemática e do Português e com Professores que saibam “não o que ensinam mas porque o ensinam”.

Mas percebo a vontade dos defensores dos direitos dos outros de se criarem quotas de representatividade para minorias ou grupos marginalizados em instituições públicas (e privadas).

Embora por razões diferentes das invocadas quando falam em direitos das mulheres. As quotas das minorias serão uma forma de forçar a sensibilização da opinião pública para as mesmas permitindo-lhes mostrarem o seu “igual à maioria” em termos de dignidade social. Mas em relação às mulheres o problema é bem diferente. As quotas têm de ser defendidas porque as mulheres são o género maioritário e por isso o futuro terá de ser construído em função da sua sensibilidade, da sua ideia de organização, da sua forma de criar relações, enfim da sua especificidade como grupo que foi secundarizado durante milénios mas que tem agora a possibilidade, o dever, de voltar a ser valor matricial.

E será através deste alargar do conceito de participação e responsabilidade que as “diferentes expressões do ser-se diferente” serão integradas no todo diverso desta actual sociedade alargada. Não se afirmando uma igualdade que não existe mas afirmando e insistindo numa dignidade do ser que, esta sim, é inequivocamente igual para lá do que nos é próprio de grupo para grupo.

É esta igualdade de dignidade que tem de ser ensinada a quem a desconhece, em qualquer tipo de aprendizagem e defendida como alicerce essencial de uma vida partilhada onde diferença e mudança, eventualmente com divergência mas sem violência, serão factores geradores de prosperidade e felicidade.

Racismo?

Este texto pretende ser uma reflexão sobre racismo. A minha reflexão sobre o assunto. Mas foi escrito para criar dúvidas em quem o ler sobre se o tema foi, de facto, abordado ou se o transformei noutra “coisa”.

O objectivo foi, exactamente, criar essa dúvida. Porque o conceito “racismo” tem muito que ver com os Médicos por sermos um dos grupos profissionais onde, por imperativo ético, tratamos (devemos tratar) todos os doentes como iguais. Entre si e em relação a nós. Esquecendo os preconceitos que também temos.

É impossível praticar-se medicina assistencial sem ter opinião sobre o racismo, ou se preferirem, sobre os racismos.

Sendo dever de todos nós tornarmos público o que pensamos sobre o assunto, sobre como o vemos nas suas diferentes expressões, sobre como agimos perante circunstâncias da prática clínica onde algum racismo se torna obcessivamente presente.

Seria muito útil socialmente e como definição identitária da profissão, que muitos percebessem a generalização deste texto como um convite para darem a conhecer nestas páginas a sua opinião, reflexão, experiência, crítica sobre uma temática do nosso tempo que está a condicionar a vida quotidiana sem que pareça haver sensibilidade para perceber que “fingir que o problema o não é” apenas gerará mais preconceitos e mais dificuldades em se lidar com a diferença.

Seja esta qual for.