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Prémio Maria de Sousa e o apoio a jovens investigadores científicos portugueses

“Se é certo que nada nos fará ultrapassar a perda da Prof.ª Maria de Sousa, não será menos verdade que dar continuidade ao seu legado é a mais nobre forma que temos de a homenagear. Foi por isso que, logo após a sua morte, a Ordem dos Médicos e a Fundação BIAL avançaram com a criação do prémio que nos junta hoje aqui, e que só foi possível concretizar com o empenho e visão de quem valoriza a excelência da liderança na investigação e acredita no presente e no futuro da qualidade dos nossos jovens investigadores”, sublinhou Miguel Guimarães na cerimónia que distinguiu 5 jovens investigadores.

O apoio e incentivo aos mais jovens, sem qualquer medo ou preconceito, era, aliás uma das marcas de Maria de Sousa. “Ser humano de grande sensibilidade”, preocupada, sem medo e com grande sentido de humor, foram algumas das expressões partilhadas por todos aqueles que tiveram o prazer de privar com a investigadora. Era um espírito livre e, como foi referido por Luís Portela, “uma pessoa que amava a vida”, que assumiu a ciência mas que tinha muitos interesses: gostava muito de ler, amava música, poesia (que escrevia) e a arte em geral. “Trazia muito rigor a tudo aquilo em que participava” e ajudava os jovens “a aprender mais e buscar mais”.

O gosto pela música foi também realçado por Miguel Guimarães ao referir que o próprio espaço  nos remete para esses seus gotos: “o teatro Thalia, remete-nos também para a música, uma paixão partilhada e presente de Maria de Sousa, na qual também se afirmou. O talento de Maria de Sousa foi criado e nutrido no cruzamento de várias áreas do conhecimento, que permitiram o nascimento de projetos profissionais de excelência que marcaram a evolução da ciência e dignificaram o nome de Portugal a nível internacional”, vincou.

Promovido pela Ordem dos Médicos e pela Fundação Bial, o prémio entregue neste dia foi instituído pela primeira vez este ano e homenageia precisamente a médica e imunologista Maria de Sousa, que morreu em 2020, aos 80 anos, com COVID-19, e visa apoiar cientistas portugueses até aos 35 anos em trabalhos na área das ciências da saúde. O neurocientista e presidente do júri, Rui Costa, referindo a dificuldade em escolher apenas um premiado, elogiou a generosidade da BIAL e da OM que permitiram galardoar não um, mas 5 jovens cientistas. A Ordem dos Médicos e a Fundação BIAL decidiram alargar o número de investigadores apoiados e o valor global do Prémio Maria de Sousa, o que passará a vigorar na presente e em futuras edições.

Depois de enaltecidos pelo presidente do júri, os investigadores principais das equipas vencedoras, apresentaram os seus projetos, deixando palavras unânimes de reconhecimento a Maria de Sousa, como fonte de inspiração, assim como a todos os mentores destes trabalhos, e à BIAL e OM pela iniciativa e oportunidade. Resumimos em seguida o essencial de cada um dos trabalhos:

Daniela Freitas apresentou um projeto com o objetivo de encontrar novos biomarcadores e potenciais alvos terapêuticos em patologias onde é frequente o diagnóstico ocorrer em fases avançadas dificultando a eficácia das estratégias de tratamento. Para tal, vai estudar a “glicosilação de vesículas extracelulares de cancro gástrico e o seu impacto na comunicação inter-celular e o seu papel para a descoberta de novos biomarcadores”.

Sara Silva Pereira propõe-se analisar as proteínas da superfície do parasita Trypanosoma congolense que permitem que se agarre aos vasos sanguíneos e qual a relação entre estas proteínas e a severidade da doença em gado, com forte impacto económico na vida das populações. Com este trabalho espera-se identificar biomarcadores que possam ser utilizados “num dispositivo de diagnóstico portátil para rastrear gado em larga escala e informar a comunidade sobre a virulência das estirpes em circulação e o risco de doença grave”.

Mariana Osswald irá investigar como regular forças dependentes de actomiosina para preservar a integridade de um epitélio, tecido dinâmico constituído por células que revestem todas as superfícies do nosso corpo, formando uma barreira protetora. Espera-se contribuir para compreender melhor certas doenças – obtendo resultados úteis em patologias como o cancro ou doenças inflamatórias.

O trabalho do endocrinologista Pedro Marques visa identificar novos biomarcadores úteis para o diagnóstico de adenomas hipofisários. Para melhorar o diagnóstico propõe-se estudar a interação entre as quimiocinas, substâncias produzidas e libertadas pelas células tumorais, e as células imunitárias e “identificar mecanismos através dos quais esta interação possa promover o crescimento e agressividade tumorais”.

Andreia Pereira realizou um trabalho sobre exploração de biomateriais como nanogeradores triboelétricos para aplicações cardiovasculares no qual propõe-se explorar novas fontes de energia e novos métodos de deteção precoce de obstrução de vasos sanguíneos com o objetivo de obter uma “fonte de energia inesgotável” que possa ser usada em dispositivos cardiovasculares e com isso “melhorar a vida a 420 milhões de pessoas que sofrem destas patologias em todo o mundo”.

A cerimónia de entrega das distinções realizou-se no dia 24 de novembro, no Teatro Thalia, em Lisboa, e contou com a presença do primeiro-ministro, António Costa, do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor.

Foi precisamente António Costa que encerrou a cerimónia referindo Maria de Sousa como uma grande investigadora, uma grande promotora da ciência e uma grande incentivadora das novas gerações, com uma grande preocupação de cidadania. “O seu compromisso não era só com a ciência era também com a sociedade” pois Maria de Sousa “queria que a ciência chegasse também ao comum dos cidadãos”, recordou, “pois tinha bem presente que só haverá ciência forte se a sociedade se apropriar e perceber que a ciência é uma prioridade (…) essencial”. “Com a pandemia percebemos  a gratidão que devemos à ciência por num prazo excecionalmente curto ter sido capaz de identificar as vacinas que têm revelado ser a forma mais eficaz de a combater”. Deixou também palavras de apreço aos médicos que têm sido capazes de se adaptar e encontrar novas formas de abordar uma doença até agora desconhecida. “De toda esta situação traumática o maior ganho civilizacional será a compreensão do cidadão comum na importância do investimento em ciência, um investimento que tem que começar na educação para que possamos depois ter investigadores”, porque “a cultura de ciência numa sociedade é essencial para o futuro dessa sociedade”.