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Papel do médico perante solicitação de exames de rotina

Autor: Jorge da Cunha, Médico Interno do 4º ano de MGF (USF Nós e Vós Saúde)

Resumo: A solicitação de exames de rotina é frequentemente o motivo de consulta de muitos adultos saudáveis. Que fatores estão associados ao pedido de exames pelos utentes? Que estratégia deve o médico adotar perante as expetativas dos utentes?

 

Na prática clínica, os exames laboratoriais e radiológicos são elementos fundamentais no diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos doentes.

Diariamente, os médicos são confrontados com solicitação de exames de rotina por parte de adultos saudáveis, apenas porque têm a falsa noção que os deveriam fazer, ou por uma questão de segurança. As ações publicitárias das farmacêuticas, a promoção da doença, o padrão consumista da saúde e a falta de conhecimento de saúde dos cidadãos geram falsas expetativas nos utentes e contribuem para o desmesurado pedido de exames1.  Hoje em dia, existe mais acesso a informação, mas isso não significa que haja mais conhecimento, até porque a informação pode não ser exata. Mas, inevitavelmente, esse maior acesso a informação molda e determina as expetativas dos utentes

A estratégia para lidar com esta situação passa por incrementar a literacia no domínio da saúde. Os utentes têm que ser sensibilizados para o uso adequado de exames médicos e intervenções preventivas e devem ser informados sobre os benefícios e riscos de determinados exames. É do conhecimento geral que os medicamentos têm efeitos secundários, mas poucos são os que associam os exames a riscos para a saúde. Há riscos associados quando se intervém em pessoas que não demonstram sintomas, já que a exposição a um falso positivo, por exemplo, pode ter danos físicos e psicológicos e pode conduzir à realização de outros exames e tratamentos desnecessários.

A realização de exames pedidos sem critério, de forma descontextualizada e em quantidade não se traduz em melhores cuidados com a saúde e não reduz a morbilidade ou a mortalidade geral2. Por outro lado, os resultados normais são muitas vezes insuficientes para tranquilizar os utentes mais ansiosos, que necessitam de uma atenção suplementar após a realização de exames com resultados normais3.

A decisão de prescrever exames laboratoriais ou radiológicos deve assentar numa anamnese cuidada e adaptada às circunstâncias individuais de cada pessoa. Compete aos profissionais de saúde, esclarecer sobre a importância, limitações e riscos dos exames complementares de diagnóstico.

Por último, relembrar que os cuidados devem estar centrados no doente e não propriamente no exame. O recurso a meios complementares de diagnóstico não substitui todo o conhecimento que pode ser obtido com uma relação mais próxima do médico ao doente.

 

Referências

  1. Melo, M. A prevenção quaternária contra os excessos da Medicina. Rev Port Clin Geral 2007; 23:289-93
  2. Krogsbøll LT, et al. General health checks in adults for reducing morbidity and mortality from disease: Cochrane systematic review and meta-analysis. BMJ 2012; 345:e7191
  3. Petrie KJ, Sherriff R. Normal diagnostic test results do not reassure patients. Evidence-Based Medicine, Feb 2014; Vol.19, Ed.1.