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O estigma da patologia psiquiátrica na prática clinica

Autora: Ana Castro Cunha, Médica Interna do 4º ano de Formação Específica em MGF (UCSP S. Neutel, Centro Saúde Chaves 1)

 

Em Portugal, as perturbações psiquiátricas afetam mais de um quinto da população portuguesa (22,9%). Deste valor global destacam-se os mais altos nas perturbações da ansiedade (16,5%) e nas perturbações depressivas (7,9%).

O termo “estigma” deriva da palavra grega steizen, que designava a marca que era gravada no corpo de escravos e criminosos. Esta marca visava assinalar os membros da sociedade com menor valor. A patologia psiquiátrica é marcada por fenómenos de incompreensão e exclusão social e, apesar alguns avanços ao longo dos anos, e ao contrário do que seria desejável, o conceito global de doença mental ainda não evoluiu completamente da ideia de fenómeno imprevisível, perigoso e incurável para a perspetiva científica de patologia que, como qualquer outra, pode e deve ser tratada.

Este estigma está presente até entre os profissionais de saúde e é um dos principais obstáculos ao correto diagnóstico de múltiplas patologias orgânicas. Na prática clínica de muitos profissionais de saúde, há tendência para desvalorizar queixas do doente, e associá-las à doença de base, sendo esta situação mais exacerbada quando o doente tem uma patologia do foro psiquiátrico. Está descrito em toda a literatura, que deve ser excluída patologia orgânica, quer pelo exame objetivo ou através de exames complementares de diagnóstico, antes do diagnóstico de uma patologia do foro psiquiátrico. Por exemplo, valorizar queixas de perdas de memória, palpitações, cefaleias, anedonia, lipotimias ou sincopes, com a realização exame objetivo completo e um estudo complementar se necessário. É importante lembrar estas atitudes médicas e a sua importância na prática clinica para a valorização do doente psiquiátrico e melhoria dos cuidados a estes doentes.

Não só em Portugal mas em todo o mundo, uma das causas de morte precoce em doentes com patologia mental é o subdiagnóstico de situações graves por não serem levadas a sério. Os profissionais de saúde devem ser encorajados a rever as suas atitudes de forma crítica e a modificá-las de maneira a poderem cumprir a sua função de prestar os melhores cuidados às suas populações.