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Não matem a avózinha

Autor: João Miguel Nunes “Rocha”

Não matem a avózinha

A multidão rodeia-me, mas eu sinto-me só; desejaria fabricar sorrisos que demonstrassem a todos o meu enorme desejo de comunicação, mas os meus lábios apenas desenham esgares que me tornam ridículo. E, quando cansado, farto de tentar demolir essa barreira que me separa das pessoas, volto a mim e reflito, encontro o enorme vazio dos velhos, tropeços descartáveis nos tempos que correm, olhados de soslaio pelos seus concidadãos, que assistem à sua extinção, como se de um mal necessário se tratasse ou, até de um bem (as lágrimas do herdeiro são riso disfarçado).

À medida que nos aproximamos das “nebulosas campinas da eternidade”, a nossa substância (mais alma) vai-se tornando etérea e tão frágil, que suscita naturais preocupações, a esta gente da governação, caracterizada pela dedicação (aos interesses) e por uma bondade difícil de encontrar mesmo nos púlpitos, nos nichos ou até no Céu. Somos um país pobre, com cuidados paliativos escassos para os doentes ricos e, inexistentes, para os velhos pobres, e, por isso,  obstando à dor e  mantendo a dignidade , o parlamento, onde o altruísmo flui, abunda  e se esbanja, aprovou a Eutanásia ,facultando, a esmo e a eito, aos doentes e aos velhos, a Boa Morte, poupando-os à possivelmente longínqua mas nunca indigna,  morte natural.

Agora que  o Covid- 19 grassa , sem que o governo tenha sido prolixo em nada, senão na desinformação(máscaras ,testes, apoio a lares, números, ventiladores negados aos seniores, linha SNS paga, e para que se liga em vão … apoio domiciliário) os velhos depositados nos lares, permanecem lá aprisionados, positivos e negativos ombro a ombro, numa proximidade pegadiça e promíscua, respirando o mesmo ar atabafado, contagioso e letal. E, como a maioria dos velhos não são taralhoucos, é inimaginável o terror-pânico que impera nestes antros a que acresce, a amargura pelo ostracismo e pela passividade, dos que amaram. E, se Isto acontece nos lares bons subsidiados pela SS, só Deus sabe, o que se passará nas pré-morgues enxovias, que são os lares clandestinos, onde os residentes, jazem atafulhados e partilham um espaço menor do que os defuntos do cemitério dos Prazeres e onde a pandemia(por ser de declaração obrigatória) nunca entrará. Todas as defunções serão devidamente certificadas pelo colega que colabore com a funerária, nestes tempos de grande facturação, para os papa-defuntos. Na minha opinião as estatísticas  correctas dos óbitos por Covid-19, são as  constantes na contabilização das supracitadas, subtraída do número de óbitos, em períodos idênticos de  anos transactos.

Aos velhos que ainda habitam algures, maioritariamente   em condições precárias, querem coloca-los em prisão domiciliaria perpétua, numa atitude elaborada de maldade que não  lembraria a Satanás, ao Marquês de Sade, nem sequer aos Nazis cujo” tratamento” era de grande eficácia, decorrendo cerca de uma hora desde que os “clientes” entravam por seu pé nos balneários, até que saíam pelas chaminés de Auschwitz. E, entretanto, ainda os despojavam dos dentes de ouro, do cabelo, das tatuagens… Que tal intenção  tenha partido, do frenético espalha-afectos, parece-me absurdo, tanto mais que a denigre e fere  uma inconstitucionalidade, que só por lapso ,poderia escapar, ao ilustre Professor, cuja humanidade se prova ao consentir a soltura de 2000  presidiários sem factores de risco em relação ao Covid-19, já que estes, serão abrangidos por um indulto presidencial. Que consolos restam aos bastos gerontes, sem família que os apoie ou reforma que lhes encha a malga, senão o sol, que até os alemães insistem em cá vir apanhar. Se  fosse atreito a divagações malignas, talvez me ocorresse que estão a encurrala-los para que o stress faça o que o Covid-19 não fez, ou que até talvez, seja nomeada uma comissão(unidade missão)que lhes vá infectar a casa, com o patriótico e meritório intuito, de melhorar a sustentabilidade das pensões

Estiveram muito bem: os profissionais de saúde na frente da batalha; os colegas Miguel Guimarães , Roque Cunha e Tiago Correia; alguns  jornalistas e pouquíssimos políticos. O comportamento exemplar do povo talvez se deva, mais ao medo, do que ao civismo.

Oeiras 18 de Abril de 2020

João Miguel Nunes “Rocha”