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Litoral Alentejano: “O litoral mais interior do país”

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, realizou, no dia 29 de janeiro, uma visita de trabalho à Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano (ULSLA), com o objetivo de ouvir as preocupações dos médicos que ali trabalham, bem como de conhecer no terreno quais são as principais carências no funcionamento da instituição. O tom global foi de desânimo, numa unidade em que faltam tantos médicos como os que estão nos quadros.

 

Os trabalhos iniciaram-se com uma reunião com o conselho de administração do hospital onde, além do bastonário, estiveram presentes representantes sindicais, nomeadamente Jorge Espírito Santo, por parte da FNAM, e Armindo Ribeiro, do SIM. O condicionamento que a administração sente relativamente ao financiamento foi uma das dificuldades apontadas pela diretora clínica, Alda Pinto, que considera haver uma grande dependência de apoios e concursos como é o caso do Alentejo 2020, o que potencia atrasos grandes. Em relação às estruturas, António Pinheiro – vogal executivo – sublinha que são necessárias obras estruturais na cobertura do hospital, onde “há problemas de infiltrações”, que causam especial constrangimento no inverno. Mas é no mapa de pessoal médico que surge uma das principais preocupações: 50% do mapa de médicos previsto está vazio e, consequentemente, existe uma dependência de serviços externos.

“A única especialidade com o número ideal de médicos é Saúde Pública”, realçou Alda Pinto. A Gastrenterologia tem apenas 1 médico (com horário de 20 horas) a trabalhar, uma situação que é agravada com o facto de já ter rescindido o contrato, faltando apenas 2 meses para sair do serviço e do hospital. A Pediatria conta também apenas com 1 médico no mapa de pessoal (já em idade de reforma) e uma médica que se fixou no concurso de mobilidade. A Urologia tem apenas 1 cirurgião com o apoio de 1 médico em prestação de serviço que vem de Faro duas vezes por semana. Também na Ginecologia é a prestação de serviços que garante o funcionamento da especialidade. Neste caso existem apenas dois especialistas do hospital.

Este foi o panorama que Miguel Guimarães encontrou e abordou na reunião com os colegas que se iniciou após uma visita ao serviço de Urgência, Cuidados Paliativos, Ortopedia e Pediatria. Muitos médicos deram voz aos constrangimentos que sentem todos os dias ao tentar dar a sua melhor resposta às necessidades da população. Margarida Carvalho, responsável da Unidade de Cuidados Paliativos, definiu a região como sendo o “litoral mais interior de Portugal”, pelas suas debilidades em termos de recursos humanos, equipamentos e apoio a vários níveis. Psiquiatras, urologistas, pediatras, entre outros profissionais, salientaram que sem incentivos à fixação na região ponderam mesmo acabar por sair. Incentivos que não passam apenas por questões remuneratórias: fala-se de “projetos”, “carreira” e até simplesmente de “habitação”. Quem vai mesmo sair em breve é o único gastroenterologista do hospital, por já não conseguir suportar sozinho uma “lista de espera enorme”. “Cansei-me, é a primeira vez que estou a desistir de algo”, declarou.

Depois de ouvir atentamente os médicos, o bastonário adiantou que vai propor à tutela uma mudança na política de contratação de profissionais, bem como “verdadeiros incentivos” para resolver o problema deste hospital e das regiões periféricas em geral. Para Miguel Guimarães, os médicos da ULSLA são “uns heróis” porque “têm uma pressão muito grande” devido “à falta de médicos” em várias áreas.

“Este hospital tem cerca de 90 médicos especialistas e cerca de 40 médicos em formação. Se, por ventura, aquilo que são as horas extraordinárias e o que são as horas pagas em prestação de serviços fossem transformadas em contratos individuais de trabalho com os médicos a fazerem 40 horas, estes valores dariam para contratar 82 médicos”, defendeu, para ilustrar que grande parte da atividade é assegurara por prestadores. As carências estão a ter reflexo em várias áreas, com as cirurgias programadas a sofrerem uma quebra de mais de 40% entre outubro de 2017 e outubro de 2018 (últimos dados disponibilizados pela ACSS).