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Manuel Macemino Gomez Gomez(1962-2017)

    Homenagem

    Evocação de um Homem que foi Médico

    Max, não sei se era nome breve e sincopado ou diminutivo ternurento.

    Com este nome conheço apenas o da pomba branca e o inspector que deve parte significativa da sua popularidade ao espertíssimo pastor alemão que fareja onde os homens não enxergam.

    Não importa. Era Max, está tudo dito. Com três letras apenas, também, se escrevem as duas palavras maiores da vida.

    Conhecia-o há longos anos, sem verdadeiramente nunca o ter conhecido.

    No frenesim da vida cruzámo-nos vezes sem conta, cumprimentando-nos na passada.

    Tez morena, cabelo negro, rosto iluminado por um sorriso matreiro de infância, descontraído, alegre e folgazão, de olhar expressivo de que está de bem com a vida.

    Com afabilidade e generosidade a todos atendia com proverbial disponibilidade, espraiando com particular mestria os seus dotes no exercício da sua arte, a especialidade de cirurgia plástica e reconstrutiva.

    O inconformismo com a natureza e a busca do belo, transformaram-no na oficina dos sonhos dos deserdados da beleza, dos menos favorecidos por uma genética avara, das vítimas das contingências penosas da vida, dos enamorados da beleza.

    Com paciência, habilidade e arte limpou frontarias de antigo esplendor, fustigadas pelas intempéries do tempo, sulcadas e vincadas pelo seu caminho devastador, restituindo-lhes o brilho de outrora.

    Arquiteto na conceção, escultor na execução, médico na arte do trabalho da pedra viva do humano. Um dia a notícia correu rápida e fulminante como o relâmpago, colhendo-nos de surpresa. O Max tem um tumor cerebral, disse-me o António, bi amigo, entre temeroso, incrédulo e esperançoso.

    A sua ausência do hospital confirma os temores mais funestos. Era mesmo verdade.

    O seu vazio é povoado por histórias, referências e memórias, que teimosamente persistem em agarrá-lo à vida e ao convívio dos amigos.

    O que foram factos e vivências anónimas, são agora um imaginário que povoa a sua ausência, uns mais sérios, outros mais irónicos, outros ainda espelhando uma humanidade simples e bem disposta que era a moldura da sua personalidade.

    Encanzinado com o comportamento alheado e pouco solidário da família de uma sua doente, que lhe tinha dado sérias preocupações e desgastante esforço, com alta arrastada e já desconfortada com o prolongamento da sua estadia hospitalar, decide deitar mãos à obra e resolver o assunto.

    – Amanhã vamos levar a Deolinda a casa, diz em conversa com o seu amigo Zé.

    – Como?

    – De carro.

    Meio engasgado o Zé lá arranjou como se expressar.

    – Deixa de inventar. Passa-te cada uma pela cabeça, que às vezes parece não bateres bem da bola.

    – Qual é o problema?

    – Até ao carro temos quem nos ajude.

    – Não digo que não. E depois levá-la ao 1º andar?

    – Estará alguém em casa em condições de nos ajudar?

    – Quero lá saber!

    – Neste tempo todo alguém se preocupou com o seu bem-estar, farta de estar no hospital?

    – Então como resolver?

    – És o super homem?

    – Não, não sou, mas tenho um super amigo, chamado Zé que me vai ajudar.

    Arrelampado, com um rosto que flui da palidez de cal ao rubor incendiado, gaguejando, mas….. sabes bem… que tenho compromissos… não posso ajudar-te.

    – Chega para lá essa conversa, já a conheço de ginjeira… deixa-te de tretas e vamos ao trabalho.

    – Até ao carro não há problema, a rapaziada ajuda. Depois se ninguém nos puder dar uma mãozinha, o je e tu fazem o resto.

    Um tremor indeciso e nervoso do lábio é cortado pela firmeza da decisão do Max.

    É assunto arrumado. Nem se discute.

    – Quando se mete uma ideia na tua cabeça és mesmo cabeçudo!

    – Vamos arranjar um bico de obra pelas nossas próprias mãos, mas está bem, faça-se a tua vontade.

    – É mais um molho de bróculos.

    Não há delonga que a vontade pode esmorecer.

    Passada do cadeirão do serviço para a cadeira de rodas, rapidamente o elevador os conduz ao piso térreo, onde à porta os espera o automóvel que os levará à casa da Deolinda, rapidamente acomodada no seu interior sem aparente dificuldade.

    Tudo bem até aqui, mercê de um esforço sincronizado e do apoio de terceiros, o que não invalida a preocupação que se espelha no rosto do Zé.

    – Metes-me em cada alhada.

    Com um meio sorriso de pudor e felicidade a Deolinda deixa escapar um sumido obrigado.

    Breve a viagem. Saltando do carro o bom do Max pressiona em vão o trim… da campainha. Nada de resposta.

    – Arranjaste-a bonita!

    – Estamos lixados, Max.

    – Como vais resolver? Voltamos para trás?

    – Estás maluco, nem pensar!

    Viemos deixá-la a casa e é isso que vai acontecer.

    Temos a chave da casa e vamos pô-la lá acima. A família chegará em breve. Avisei-os.

    De olhar vazio o Zé fitava-o.

    – Como?

    Não temos elevador.

    Com o meu físico e o teu corpanzil. Vá! Vamos a isto.

    Tirada a cadeira de rodas da bagageira e abertas as portas iniciaram-se as manobras, de resgatar a Deolinda do automóvel.

    Acocorados para dentro da viatura, lá vão manobrando, com o Zé sempre protestante num sussurro imperceptível, mas colaborando com energia na libertação da Deolinda, em breve resgatada do interior da viatura e sentada na cadeira, pronta a regressar a casa.

    – Agora é que vai ser o bom e o bonito.

    – Não vai ser nada. Com jeitinho tudo se resolve.

    Temos que atuar sincronizados, vais ver que é mais jeito que força.

    Aos poucos vão progredindo no átrio, caminhando a cadeira como um veleiro em mar manso.

    – Eu que sou mais jeitoso vou segurá-la por cima. Tu que tens bom físico aguentas em baixo.

    – Estava-se mesmo a ver para quem ficava o pior bocado.

    – Cala-te e vamos a isto. Estamos no primeiro degrau e o espaço é apertado.

    De degrau em degrau, com paragens, balanços e solavancos lá vão progredindo.

    O Zé desaustinado, maldizendo a vida, suava em bica. A sua farta cabeleira era um alambique destilando suor suor que embaciava os olhos, percorria o rosto de grossas gotas e salgava os lábios, donde esvoaçava uma ladainha de protesto, desse corpo grande pouco dado e habituado a esforços, mais amante de uma boa bejeca numa roda de amigos.

    – Vá aguenta-te, a cadeira está a ceder para o teu lado, estás a dormir ou quê?

    – É bom de dizer quando uns fazem de burro de carga e os outros de “jeitosos”.

    – Cala-te que desconcentras a tua força. Está tudo a correr bem, só falta um lance de escadas e está o dia ganho.

    A fase final foi um suplício. O Max de dentes cerrados aguentava a pé firme enquanto o Zé todo ele feito suor, rubor e rictus facial de tensão, retesava os seus músculos bem marinados em banha, num último esforço para atingir o patamar, onde o sorriso aberto e feliz de Deolinda se funde em abraços e beijos com os seus familiares.

    Apoiada no andarilho, com vigilância próxima sempre pronta a segurá-la, dá com radiosa felicidade, os primeiros, ainda que titubeantes, passos na sua casa.

    Serenada a intempérie de esforço com relaxantes e profundas inspirações, acompanhada de ritmado e tranquilo relaxamento muscular, despedem-se, e saúdam-se mutuamente com uma vigorosa palmada de amizade.

    – Eh Max, livra que isto foi duro.

    – Qual duro, só faz bem.

    – Tens razão oh jeitoso, sinto-me mais leve até parece que emagreci.

    – Mas é que emagreceste mesmo.

    Basta olhar para a tua cara e vê-se que estás mais magro, pelo menos 100 gramas.

    – Já faltava a piadinha.

    Vamos mas é embora que já estou muito atrasado, tenho a minha vida toda embrulhada.

    Boa piada.

    – Vamos embora…

    Felizes e abraçados lá vão cantarolando à desgarrada.

     

     

    Pomba branca

    Já perdi o teu voar

    Naquela terra distante

    Toda coberta p’lo mar

    Já perdi o teu voar

    Naquela terra distante

    Toda coberta p’lo mar

     

    Em fios feitos de lágrimas passadas

    Os meninos do Huambo fazem alegria

    Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas

    E no céu descobrem estrelas de magia

     

    Os meninos à volta da fogueira

    Vão aprender coisas de sonho e verdade

    Vão aprender como se ganha uma bandeira

    Vão saber o que custou a liberdade

     

    Coimbra tem mais encanto na hora da despedida

    Coimbra tem mais encanto na hora da despedida

    Que as lágrimas do meu pranto

    São a luz que lhe dá vida

    Coimbra tem mais encanto na hora da despedida

    Coimbra tem mais encanto na hora da despedida

    Quem me dera estar contente

    Enganar minha dor

    Mas a saudade não mente

    Se é verdadeiro o amor.

    Coimbra tem mais encanto na hora da despedida.

     

    Tarde de Julho de um verão incerto. Ar quente, pesado e abafante. Céu de um azul triste, pálido e desmaiado, polvilhado por nuvens esparsas, floculadas, compactas e densas de um branco sujo.

    No café familiar da bica habitual e de breves e distendidas conversas com o colega e amigo Delfim, o enfermeiro Carlos homem generoso, profissional dedicado e competente, companheiro de longas horas de trabalho, de um outro tempo da vida e da medicina, acabava de tomar o seu café.

    Semblante fechado e triste, contrastando com o seu habitual rosto prazenteiro.

    Saúdo-o com a familiaridade de sempre, mas de forma contida e suspensa.

    Com a voz embargada pela emoção, diz-me que vai acompanhar o Max no último trajeto da sua vida.

    – Trabalharam juntos?

    Perguntei-lhe a meia voz.

    Mais do que tudo foi meu amigo, acompanhou-me na minha doença, ia-me buscar, – se não pode ser para o petisco, é para a conversa, que é o melhor petisco da vida.

    A voz já embargada pela emoção, torna-se dela prisioneira. Os olhos banhados por um líquido límpido e cristalino de água de rocha, são o espelho da mesma emoção.

    Num breve aceno de despedida, vejo-o sair vergado ao peso de uma sentida ausência e revejo toda a beleza da amizade e a grandeza desse sonho de ser médico que alguns eleitos encarnam e vivem.

    Setúbal, 28 de Novembro de 2017

    Amadeu Prado Lacerda

    Datas

    Nome completo: Manuel Macemino Gomez Gomez
    Nome clínico: MACEMINO GOMEZ
    Cédula profissional: 32736
    Especialidade:  CIRURGIA PLÁSTICA E RECONSTRUTIVA E ESTÉTICA
    Data de nascimento:  11/05/1962
    Natural de  VENEZUELA
    Data de Inscrição na OM: 7/12/1988
    Data de Formatura:  3/10/1988
    Faculdade:  UNIVERSIDADE DE COIMBRA
    Adquiriu a nacionalidade portuguesa a 20 de setembro de 1990
    Data de falecimento:  19/07/2017

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