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António Augusto da Silva Martins(1892-1930)

    Homenagem

    António Augusto da Silva Martins foi sem dúvida um exemplo a nunca esquecer e a procurar seguir, não só como médico mas sobretudo como Ser Humano.

    Nasceu em 4 de Abril de 1892, na freguesia de São Miguel do Rio Torto, Concelho de Abrantes, filho de João Augusto da Sila Martins e de Esperança Augusta da Silva Martins. Casou com Maria Madalena Mascarenhas Gentil, da qual teve três filhos: Francisco (Cirurgião), Alice (Enfermeira e depois Psicóloga) e António (Cirurgião, que tinha três meses quando o pai faleceu, em 3 de Outubro de 1930).

    Foi um Chefe de Família exemplar (marido e pai), com uma mulher excepcional que, sempre fiel à memória do marido, procurou transmitir aos filhos o seu exemplo.

    O Médico Cirurgião, o Desportista, o Ser Humano

    Os pais, vendo-o franzino e de constituição delicada, mandaram-no estudar para Santarém, de onde seguiu depois para Coimbra, onde começou a praticar ginástica e a nadar no Mondego. Isto acompanhou-se de uma transformação radical, melhorando consideravelmente a sua atitude, o seu rendimento escolar e as suas condições físicas.

    Em 1911 começa a frequentar o Curso de Filosofia, como início do seu Curso Médico. Contudo, decide ir para Lisboa, com grande pena de Sidónio Pais  (mais tarde Presidente da República) que afirmava: “Levar António Martins   de Coimbra   é  um   crime   que   não   tem   explicação.   Ele era o  maior valor  que  a Universidade  podia apresentar  nos últimos anos.” Termina o curso em 1917 com a média de 18 valores. Em 1922  defende  tese de Doutoramento e  obtém a classificação máxima: 20 valores.

     

    O Médico Cirurgião:

    Afirmava Mestre Henrique de Vilhena: “pude apreciar em cada dia  a nobreza, a lealdade e a segurança do seu trato, e assim, do seu carácter. Tinha um conjunto de qualidades para a profissão de Médico Cirurgião, tão verdadeiramente excepcional que ele não podia deixar de tornar-se o nosso primeiro cirurgião, deste tempo e dos tempos passados”.

    Segundo o Prof. Moreira Junior: “Era o artista da Cirurgia. Tinha a precisão, a certeza e a elegância que são as forças dessa nobre missão. As suas qualidades morais, porém, ainda sobrepujavam as suas qualidades científicas. Morre por acidente na Carreira de Tiro, aos 38 anos. Já tinha sido aprovado no Concurso para Cirurgião dos Hospitais Civis de Lisboa e estava  em vésperas de se tornar Professor da Faculdade de Medicina.

    A sua plena dedicação aos interesses dos doentes e a sua modéstia é bem exemplificada neste exemplo: António Martins notou certas alterações num doente as quais o deixaram apreensivo. À noite decidiu não se deitar para, de tempos em tempos, ir observar o enfermo. Já de madrugada a grande hemorragia, tinha surgido.

    Então sustou a hemorragia e, com palavras de conforto e de coragem para o doente, tirou das suas próprias veias cerca de meio litro de sangue para aquele cuja vida perigava. Na ficha do doente, embora lá se encontrasse registada a transfusão, nada era dito sobre o dador. E foi só quando o responsável do Serviço procurou saber a origem do sangue, é que se ficou a saber quem tinha sido o dador. E também se ficou a saber que o sangue tinha sido obtido de uma veia do pé (e não do braço como era habitual) para que o cirurgião ficasse com as mãos livres para poder tratar o doente!

     

    O Desportista:

    Como desportista foi, sem sombra de dúvidas, o mais completo atleta português de todos os tempos, a verdadeira imagem dos “Espírito Olímpico”. Sempre desportista amador, tendo feito da ginástica a base dos seus êxitos, representou sempre o CIF e a ST2. Obteve mais de doze títulos de Campeão de Portugal e dez recordes, em lançamento do peso, do dardo, do disco, do salto em comprimento, do salto em altura e do salto em largura, bem como 28 títulos de Campeão de Portugal e 11 recordes em carabina de precisão, arma livre, arma de guerra, pistola livre, pistola de velocidade, pistola de guerra. Vencedor de Matches Latinos, em carabina e pistola livre, 12º classificado no Campeonato do Mundo com espingarda de guerra na posição de pé em 1928 (o único ano em que o tiro não fez parte dos Jogos Olímpicos!). Foi o primeiro atleta português Olímpico em duas modalidades diferentes: disco, (Amsterdão,1924) e tiro (Paris, 1920-92 e Amsterdão, 1924-62).

    Desejou sempre a competição leal, ajudando e ensinando, sem receios mesquinhos de ver triunfar os outros, diriam na revista O Caçador. Pela sua correcção, pela infinita bondade da sua alma, transformava competidores em amigos, os adversários em admiradores, diriam no Diário de Notícias.

     

    Investigador

    Foi colaborador de Egas Moniz nos trabalhos que lhe deram o Prémio Nobel da Medicina e inventor de vários instrumentos cirúrgicos, como a chamada “pinça de Martins”, existente no Museu, no Hospital de Santa Maria e tendo realizado em Estocolmo em 1929, no Hospital Karolinska, a primeira arteriografia cerebral efectuada fora de Portugal. Dele, Egas Moniz dizia: “era um grande médico, meu inolvidável companheiro de trabalhos, a que o seu nome também está ligado. Mas era acima de tudo um dos melhores homens que tenho conhecido. Ninguém o excedia em bondade, a melhor de todas  as qualidades: poucos o igualavam em simpatia e dedicação. Sabia ser amigo e nunca ninguém o teve como inimigo.”

     

    Patriota

    Distinguiu-se como patriota ao oferecer-se voluntariamente como médico para integrar o Batalhão de Infantaria 23 que iria entrar em combate na frente das Ardenas. E por isso recebeu várias condecorações como a Comenda da Ordem de Cristo, com Palma, a Cruz de Guerra, a Medalha da Vitória, e, já a título póstumo, o Grande Colar da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito. Acima de tudo prezava o nome do seu país. E no jornal 12 de Janeiro seria escrito que “amou a sua terra, bateu-se por ela, na decisão dos heróis sem teatralidade, jogando a vida com a calma de quem andou sempre a oferecê-la aos outros, generosamente esquecido de si”.

    Naquele tempo o Grande Colar da Torre e Espada era atribuído, mas tinha de ser comprado… Por isso, foi decidido que cada cidadão, pobre ou rico, só podia contribuir com um escudo, assinando em sequência num livro. Assim, nesse livro, podem ver-se sucessivamente todas as classes sociais representadas: do ministro ao sapateiro, do advogado à peixeira, do padeiro ao médico, do sapateiro ao jurista, etc. etc.

     

    Artista

    Dizia Mestre  Henrique  de  Vilhena,  então  Professor  na  Escola  de  Belas Artes de Lisboa, que ele era um excelente desenhador a lápis, à pena e aguarelista esplêndido, capaz de executar na aguarela  as  maiores  subtilezas  do  desenho anatómico, obras primas no género, colecção que na iconografia anatómica merece lugar  de  destaque  (iconografia  preservada  no  Museu  de  Anatomia  da  Faculdade  de Medicina de Lisboa).

     

    O  Ser Humano

    Praticava  o  bem  sem  alardes,  antes  às escondidas,  com  o  recato das maiores delicadezas morais. Seu sogro, Francisco Gentil, contou um dia que “António Martins,  com  um  cuidado   discretíssimo, começou a negar-se a ajudá-lo em intervenções cirúrgicas, fazendo-se substituir por um outro Assistente, seu amigo. A explicação foi óbvia: o seu amigo estava para casar e precisava por isso de ganhar mais dinheiro para poder montar a sua casa de noivado…

    Dele diria Xavier da Silva: “Democrata convicto,  no momento aflito ou na  hora de perigo, quando, dia ou noite, reclamavam os seu serviços clínicos, era certo  à cabeceira do doente – quem  quer  que  ele fosse – a medicá-lo,  a incutir-lhe  fé , a levar-lhe palavras de ânimo e de esperança. De uma extrema afabilidade para  com todos os humildes, a maior  parte da  sua clínica era de pobres, que tratava com a mesma solicitude empregada nas consultas pagas.

    Foi operoso sem brutalidade, foi austero sem intolerância. Em todos tinha um amigo: nos pobres, pelo imenso bem que lhes fazia, socorrendo-os na suas desventuras com um carinho enternecedor, nos ricos pela afabilidade e a gentileza do trato, pela sua primorosa educação, enfim por um conjunto de qualidades que o impunham como uma pessoa superior”.

    Um  jornalista  do Diário Popular  (José da Silva) diria: no caso de António Martins o brilho da sua carreira, como médico e como desportista,  em nada ofuscou  as suas qualidade morais, de altruísmo junto dos  enfermos. A personalidade de António Martins ressalta sobretudo do que dele foi dito na época: Homem de inexcedíveis dotes morais, de bondade, de modéstia, de camaradagem, de força  de vontade, de auto-observação, de perseverança, de independência, de isenção e de dedicação aos outros.

    Henrique Martins Vagueiro diria:  “Há  quem termine a existência tendo mantido sempre  uma  linha  de aprumo e elegância moral quási impossível de alcançar. É por isso que há mortos que continuam a viver para recordar aos outros que procedam como eles procederam”.

    António Gentil Martins

    Lisboa, 3 de Outubro de 2017

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