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Entrevista Dia Mundial do Cancro – Sofia Ribeiro

Sofia Ribeiro é uma das atrizes mais conhecidas de Portugal. O seu percurso já passou pelo cinema, pelo teatro, pela televisão e por diversos programas de entretenimento. Foi também o rosto de várias campanhas publicitárias. “Confia” é o seu primeiro livro, onde relata momentos importantes do seu percurso pessoal, desde a infância à forma determinada e corajosa como combateu o cancro da mama, diagnosticado em 2016. Foi no contexto dessa luta que falámos com Sofia Ribeiro a 4 de fevereiro, data em que se assinala o Dia Mundial do Cancro.

 

A Sofia Ribeiro inspirou muitas pessoas com a determinação que demonstrou na luta contra o cancro, partilhando publicamente algum do seu percurso. Porque decidiu fazê-lo?

Sofia Ribeiro – Eu não decidi. No caso fui quase obrigada. Já o disse publicamente, logo depois de receber a notícia de que estava doente, essa era uma das questões. Como iria gerir o facto da minha doença não ficar só para mim e para os meus. Não fazia ideia! Estava a gravar uma novela, sabia que seria quase impossível passar despercebida, uma vez que este tipo de notícias se espalham rápido… Eu achava que seria uma questão de dias até alguém se cruzar comigo no IPO, por exemplo, e partilhar com alguém. Não vou ser hipócrita, mas no momento eu só queria tornar-me invisível. Não sendo possível e, como previa, poucos dias depois, fiquei a saber também que um jornal ia fazer sair a notícia. Não quis que fosse quem quer que seja a falar sobre a minha saúde, ou no caso na falta dela. Hoje, à distância, olho para trás e agradeço terem-me “obrigado” a fazê-lo, porque desde esse momento compreendi que tudo se torna menos pesado quando é dividido. A onda de solidariedade que se gerou após essa minha partilha, a onda de amor e de ajuda foi tão poderosa, a energia que me chegava era tanta, que decidi que queria viver a minha doença acompanhada. À medida que o tempo foi passando fui tendo noção que tudo aquilo que me chegava, desde partilhas, testemunhos, dicas, palavras de alento… ajudava-me muito. Também eu com as minhas partilhas, estava a ajudar tantas outras pessoas que estavam a passar – ou tinham passado – pelo mesmo. Porque o ser humano precisa e procura referências. Deu-me muita força essa troca. Não há uma fórmula para viver algo assim. Esta foi a minha. Cada pessoa viverá a sua da forma que mais feliz a fizer.

Qual foi a importância e o papel dos médicos que a acompanharam em todo o processo?

SF – Foram essenciais! Devo-lhes muito. Em qualquer área há bons e maus profissionais. Eu tive a maior das sortes na equipa que me acompanhou. Desde os médicos, aos enfermeiros e auxiliares… Pessoas com quem ainda hoje mantenho contato e que ficaram para sempre no meu coração. Profissionais pragmáticos, mas, na mesma proporção, generosos e humanos. Isso fez – e faz – toda a diferença.

Sentiu que foi devidamente acompanhada?

SF – Sempre. Desde o primeiro momento. Sinto que fui devidamente acompanhada, esclarecida, informada e acarinhada.

Como caracteriza essa relação médicos-Sofia?

SF – Como penso que deveria ser a relação de quaisquer médicos com todas as Sofias desta vida: uma relação de confiança, sensibilidade e entreajuda. Um trabalho de equipa.

Sentiu que lhe prestaram cuidados humanizados?

SF – Senti, sim. É como digo, tenho o maior carinho por quem me ajudou a ficar bem. Só tive duas pequenas situações, durante o processo em que estive doente, menos positivas. É fundamental os médicos, enfermeiros e auxiliares terem uma sensibilidade apurada para lidar com casos destes. Estamos a falar de pessoas que estão cheias de medo, provavelmente estão mais frágeis do que nunca. Não basta tratar. É fundamental saber cuidar! Muitas vezes a alma está mais dorida do que o corpo. E não são todos os profissionais que estão preparados para saber ler isso. É preciso ser-se francamente generoso.

Há alguma história em particular que queira partilhar e que ilustre esse acompanhamento/relação?

SF – Foram tantas, seria injusto para com quem me acompanhou, contar apenas uma história. O que mais recordo são, sem dúvida, os olhares de ternura e de “força, estamos contigo” de cada um para comigo.

Foi tratada no SNS? Sendo a resposta sim ou não, pode explicar o porquê dessa escolha?

SF – Iniciei o meu processo no SNS e terminei no privado. Mudei apenas por uma questão de conseguir um pouco mais de privacidade durante os tratamentos, uma vez que os meios de comunicação tinham descoberto onde estava a ser seguida no SNS e estavam todos os dias no IPO à espera da minha saída ou entrada. Os meus médicos e eu achamos que seria melhor um pouco mais de tranquilidade e, por esse motivo, prossegui no privado.

O que mudou na Sofia depois de ter vencido essa batalha? 

SF – Eu sou a mesma, mas acredito que mais desperta, com os sentidos e os valores mais apurados. Mais focada no que realmente tem importância, menos superficial e mais agradecida a cada momento. Não há como passar por uma situação limite e ficar tudo igual. Nada nunca mais será igual e, no meu caso, acredito que ainda bem, porque sinto que a mudança foi para melhor. Passei a tomar melhores decisões para a minha vida e consequentemente para a minha saúde. Procurei adotar hábitos mais saudáveis, praticar mais exercício físico. Aprendi a ouvir os sinais do meu corpo, a saber parar, desligar e descansar. Ganhei mais confiança em mim, naquilo que vejo, sou, e que procuro para mim. Costumo dizer que depois de ter passado pelo que já passei são poucas as coisas que me despenteiam. Penso que quem consegue enfrentar esta doença, consegue o que quiser. No fundo, o cancro veio para mim para me reorganizar, veio para eu aprender a gostar mais de mim, dos meus e do que me rodeia. Veio para eu passar a acordar e deitar-me todos os dias grata por mais um dia.

Que conselho e mensagem daria aos homens e mulheres que, neste momento, lutam contra algum tipo de cancro?

SF – Que sejam fortes, acreditem que isto é só uma fase menos boa e que vai passar. Que por mais difícil que seja – que é! – tentem não se ir abaixo. Que mantenham a alma leve e o sorriso. Que não se fechem, dividam! Tudo fica menos pesado, acreditem. Que se agarrem às coisas boas que já viveram e que ainda têm para viver. Ter cancro não é, nem pode ser visto como, uma sentença de morte. Cuidem-se, comam bem, de forma mais saudável porque vão precisar de todos os reforços para o caminho que aí virá! Mas sosseguem o coração e foquem-se em ficar bem. Costumo dizer que metade do tratamento de qualquer doença é dos médicos, a outra é nossa e passa por tudo isto que referi.

Escreveu inclusivamente um livro chamado “Confia”. O que podemos encontrar nele?

SF – É a partilha ao pormenor e sem filtros da minha história, que não querendo parecer pretensiosa, sei que tem ajudado muita gente. Escrevi-o na impossibilidade de responder às centenas e centenas de mensagens nas redes sociais e e-mails que ainda hoje me chegam e aos quais não consigo dar retorno. Por esse motivo nasceu o meu primeiro livro, com o objetivo de chegar ao maior número de pessoas possível um feedback real.

Como assinala o Dia Mundial da luta contra o cancro?

SF – Com esperança e com confiança. Embora se diga que não, ainda há muitos tabus à volta do tema cancro. É como se fosse uma palavra proibida. Como se ao repeti-la fossemos ficar doentes… Ainda assim, sinto que estamos no bom caminho. Sabemos que há muito a fazer no sentido do que todos desejamos: a cura! Mas felizmente são cada vez mais os casos de sucesso nos mais diferentes tipos de cancro. Que este dia sirva para informar, para desmistificar e, consequentemente, despertar consciências, sem alarmismos mas atentos aos sinais.