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Educação para a saúde: exemplo de persistência

Autores: Nuno Parente e Joana Castro – Médicos Internos de MGF  (USF Viver Mais, ACES Grande Porto III)

Resumo: Numa sociedade cada vez mais preenchida na sua agenda do dia-a-dia é necessário adaptar a abordagem à promoção de saúde. Este ano, o mês do antibiótico foi comemorado durante 11 dias úteis com sessões diárias, mas mais curtas, interactivas e próximas da realidade do utente que convive no espaço de uma Unidade de Saúde Familiar. Uma experiência enriquecedora sobre um tema pouco discutido.

 

A Organização Mundial da Saúde define literacia em saúde como o conjunto de competências cognitivas e sociais e a capacidade dos indivíduos para ganharem acesso a compreenderem e usarem informação de formas que promovam e mantenham boa saúde.[1] Tendo em conta o enquadramento comunitário da Medicina Geral e Familiar, a educação para a saúde, processo que utiliza a comunicação pedagógica no sentido de facilitar a aprendizagem, é um dos aspectos mais importantes da promoção da saúde.[2] Apesar de os profissionais de saúde serem um dos meios de informação credível e de confiança, as iniciativas de educação para a saúde por vezes não têm a adesão expectável. Considerando o contexto social actual, o quotidiano geral é cada vez mais preenchido e, muitas vezes, em modo rápido. Por isso, é importante definir estratégias adequadas a cada população que maximizem a participação nestas iniciativas. Se, por um lado, uma população activa em número significativo pode resultar numa menor disponibilidade para sessões de educação para a saúde de carácter não obrigatório, uma população envelhecida pode ter maior dificuldade de deslocação à sua unidade de saúde familiar (USF), sendo importante aproveitar deslocações previamente programadas para realização de outras actividades.

No âmbito do mês do antibiótico, e partindo do conhecimento da população que servimos relativamente a este tema, foi decidido reformular o “modelo tradicional” de sessões de educação para a saúde. De 15 a 27 de Novembro, os utentes que se encontravam na USF, à espera da sua consulta médica ou de enfermagem, ou que tinham acabado de ser consultados, foram convidados a assistir a uma sessão de curta duração (10 minutos), que se realizou numa das salas de espera da USF, utilizando os televisores disponíveis. Para aumentar a adesão dos utentes presentes na USF, foi combinado diária e previamente com todos os profissionais, a interrupção das consultas e do atendimento ao público tendo em conta os períodos previsíveis de maior afluência. As sessões foram construídas para desmistificar o conceito e causalidade de febre, diferenças entre infecções víricas e bacterianas, utilização correcta de antibióticos e seus efeitos adversos, conceito de resistência aos antimicrobianos (RAM), seu impacto na morbimortalidade e incutir responsabilização para o uso do antibiótico como recurso finito, integrado num ecossistema com vários intervenientes. Estas sessões foram ao encontro do novo programa da Direcção Geral de Sáude: “Programa de Prevenção e Controlo de Infecções e de Resistência aos Antimicrobianos PCIRA One Health Portugal: Plano Nacional de Combate às Resistências aos Antimicrobianos”, apresentado nas IV Jornadas do PPCIRA a 19 de Novembro, que consagra que a abordagem ao problema das RAM deve integrar não só a espécie humana, mas também as entidades responsáveis pelos animais e ambiente – Direcção Geral de Alimentação e Veterinária e Agência Portuguesa do Ambiente.

De facto, o contínuo aumento da RAM à escala mundial prevê 10 milhões de mortes/ano associadas a infecções por bactérias resistentes, gastos na ordem dos 60-100 triliões de dólares até 2050 e, consequentemente a “distinção” como primeira causa de morte a nível mundial.[3] Sabe-se que o consumo de antibiótico de forma inadequada é o factor modificável e mais frequentemente implicado na indução crescente de RAM.[4] Desta forma, e considerando a pressão do doente e familiares para a prescrição de antibiótico como obstáculo constante[5], as sessões de educação para a saúde podem servir como veículo de informação adequada, desconstruir crenças e, assim, diminuir a procura infundada de antibiótico.

Foto 1 – Sessão de educação para a saúde nº3

 

Foto 2 – Sessão de educação para a saúde nº7

Referências bibliográficas

[1] World Heath Organization. The mandate for health literacy. World Heath Organization; 2016 (Acedido a 21 de Novembro de 2018, disponível em: (http://www.who.int/healthpromotion/conferences/9gchp/health-literacy/en/);

[2] Hespanhol AP, Couto L, Martins C, Viana M. Educação para a Saúde e Prevenção na Consulta de Medicina Geral e Familiar (I). Rev Port Clin Geral 2009;25:236-41.

[3] Chaired by Jim O’neill. Review on antimicrobial resistance: tackling a crisis for the health and wealth of Nations, 2014;

[4] Costelloe C, Metcalfe C, Lovering A, et al. Effect of antibiotic prescribing in primary care on antimicrobial resistance in individual patients: systematic review and meta-analysis. BMJ 2010;340:c2096;

[5] Finkelstein JA, Dutta-Linn M, Meyer R, Goldman R., Childhood infections, antibiotics, and resistance: what are parents saying now? Clin Pediatr 2014; 53: 145-150.