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Desafios nos Cuidados de Saúde Primários: a diversidade cultural

Autora: Susana Vasques, Médica Interna no 4º ano de MGF na USF Ermesinde (ACeS Maia/Valongo, Grande Porto III)

 

De acordo com dados do último Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo (RIFA), do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), o número de imigrantes em Portugal cresceu quase 23% em 2019 face a 2018. A conjectura económica favorável vivida em Portugal potenciou o crescimento da população estrangeira entre 2015 e 2019. 1

Em Portugal, o acesso aos cuidados de saúde constitui um bem essencial que deve ser garantido a todos os indivíduos, inclusive aos migrantes.

As migrações colocam aos migrantes e às sociedades que os acolhem novas oportunidades e desafios.2

Os Cuidados de Saúde Primários constituem a primeira porta de entrada aos cuidados de saúde em Portugal. Deste modo, é compreensível que enquanto médicos de família sejamos, igualmente, o primeiro contacto de muitos utentes migrantes ao nosso sistema de saúde.

Os imigrantes podem deparar-se com uma panóplia de barreiras no acesso aos cuidados de saúde, sejam elas linguísticas, culturais, religiosas, financeiras, características inerentes ao próprio sistema ou desconhecimento do seu funcionamento, entre outras.

A comunicação em saúde é um dos aspectos mais relevantes não só para o estabelecimento de uma boa relação médico utente, mas também para uma sólida adesão à terapêutica.3 No entanto, o que dizer quando há entraves à comunicação, em particular por diferenças socioculturais?

A cultura é definida como um sistema de crenças, valores, regras e costumes partilhados por um grupo, que é usado para interpretar experiências e padrões comportamentais. Esta possui um papel modelador nas crenças relacionadas com a saúde do indivíduo, comportamentos e valores, podendo influenciar o modo como este percepciona a doença e a comunicação. Quando os profissionais de saúde, em particular os médicos, não reconhecem e compreendem as diferenças socioculturais entre os seus pacientes e os próprios, a qualidade do atendimento está em risco. 3

Ao longo do meu internato em Medicina Geral e Familiar, fui-me deparando com alguns desafios e de facto, enquanto médicos de família, é fundamental integrarmo-nos na diversidade cultural daqueles que procuram os nossos cuidados, mantendo o respeito pelas práticas culturais e religiosas de cada utente. Alguns episódios em particular ficaram-me gravados na memória e fizeram-me reflectir sobre a relevância da medicina multicultural. O primeiro caso corresponde a uma consulta de saúde infantil de uma lactente que vinha acompanhada pela mãe, que apenas falava inglês. Era a sua primeira filha e trazia, tal como muitas mães, as suas preocupações e dúvidas, nomeadamente em relação ao início da diversificação alimentar. A família era indiana e de crença muçulmana. De imediato, objectivei que seria óbvio e inevitável adaptar o plano habitualmente recomendado, uma vez que a sopa não era um alimento consumido pela família e o plano teria que ser sugerido na língua inglesa. Foi ainda necessário tranquilizar a mãe relativamente à rarefacção capilar da lactente, pois na sua cultura um cabelo forte e longo é um sinal de beleza, sendo tradição aplicar óleo de amêndoas no cabelo para estimular o crescimento do mesmo.

O segundo episódio surgiu com um utente português que estava a trabalhar no estrangeiro e trazia um relatório médico em holandês. O terceiro caso era relativo a um utente hipertenso que compareceu sozinho à consulta e não falava português nem inglês. A internet e/ou a presença de acompanhantes intérpretes podem ser úteis na resolução de alguns destes obstáculos, todavia face ao tempo limitado que temos em consulta nem sempre é fácil colmatar estas situações e responder às dúvidas e receios dos nossos utentes.

Um dos casos mais marcantes foi o do utente que relatava em primeira mão o pânico que viveu, fruto da insegurança, violência e pobreza existente no seu país de origem. Noutros casos, tornou-se necessário gerir expectativas desajustadas dos utentes, sobretudo quando apresentavam seguros de saúde nos países de origem.

Em suma, os aspectos essenciais para a prestação de cuidados efectivos interculturais são os valores fundamentais para a prática de medicina: empatia, curiosidade e respeito.3

A meu ver, apesar da complexidade e das dificuldades que podem surgir no desenrolar da interacção médico utente, o nosso papel enquanto médicos de família é o de integrar estes novos utentes, estando atentos para potenciais situações de fragilidade e/ou abuso. Considero ainda fulcral não desvalorizar o enquadramento dos utentes na sua matriz biopsicossocial. Com efeito, parece-me que a compreensão de uma abordagem centrada no doente, tendo por base a medicina multicultural, pode fornecer-nos ferramentas práticas de modo a melhorar cada vez mais a prestação de cuidados de saúde.

 

Bibliografia:

  • Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Gabinete de Estudos, Planeamento e Formação. Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo. Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, 2020.
  • Machado, F. L. “Migrações, saúde e doença – que investigação em Portugal?”, Migrações, 2007, 1, pp. 201-3
  • Betancourt J., Green A., Carrillo J.E. Cross-cultural care and communication. In: Aranson M.D., Givens J. editors. UpToDate 2020.  Último acesso a 04/12/2020.