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35 anos ao serviço da Ordem dos Médicos

Foste filha, mãe e avó dedicada e orgulhosa. Mantinhas a tradição de, ao fim de semana, reunir à mesa a família, preocupando-te em adaptar o menu ao gosto dos convivas, a quem mimavas da melhor forma porque a tua cozinha alentejana era de comer e chorar por mais. Ensinaste-me algumas receitas e ouviste pacientemente as minhas pequenas conquistas culinárias. Mas não eras particularmente paciente. Costumava, meio a sério, meio a brincar, dizer-te: “tens mau feitio, mas gosto muito de ti”. Meio a brincar porque o conceito de mau feitio é muito relativo e eu até gostava do teu. Porque era honesto. Sem jogos ou subterfúgios.

Há muito de ti que desconheço e há outro tanto que decidiste partilhar comigo e com isso honraste-me com a tua amizade. Acima de tudo tínhamos um enorme respeito profissional mútuo. Há poucos meses contaste-me o teu início na Ordem dos Médicos, há 35 anos, com funções muito modestas, durante o mandato do Prof. Gentil Martins. Estávamos com a PC. Não eras de grandes conversas pessoais e só com o passar dos anos fomos nos dando a conhecer. Nesse dia partilhaste orgulhosamente o teu percurso e eu senti-me especial para ti. Passo a passo, demonstraste o teu valor em cada tarefa que te foi atribuída e com isso alcançaste o reconhecimento dos sucessivos Bastonários. Foi com o Dr. Santana Maia que, depois de teres feito trabalho de arquivo e apoio/secretariado em algumas reuniões, te tornarias secretária oficial do Bastonário da Ordem dos Médicos. Desde então, com uma lealdade e sentido de dever (infelizmente) pouco comuns, acompanhaste os sucessivos detentores do cargo (Carlos Ribeiro, Germano de Sousa, Pedro Nunes, José Manuel Silva e, por último, José Miguel Guimarães). A todos deste o teu melhor e a certeza de que a confiança na profissional que eras podia ser absoluta. Essa foi, aliás, uma das razões que me fez gostar de ti desde os primeiros dias quando nos conhecemos há quinze anos: a certeza de que, independentemente dos nossos estados de alma, podia confiar em ti e que sempre me ajudarias em questões de trabalho mas também a perceção de como sabias ser discreta sobre todos os assuntos da instituição. Porque, primeiro, esteve sempre o interesse da Ordem dos Médicos.

“Pautemos nossa conduta por aqueles homens, dirigentes ou dirigidos, que realmente se esforçam por realizar o seu trabalho. Aqueles cujos cabelos ficam mais cedo envelhecidos na incessante luta que desempenham contra a indiferença. (…) Quero apresentar uma palavra de solidariedade pelo homem que triunfou, o homem que, contra todos os obstáculos, orientou os esforços de outros e foi bem sucedido.”*

Senhora de uma memória muito melhor que a minha, era a ti que todos recorríamos quando precisávamos de saber se existiria algum documento arquivado sobre um determinado assunto ou em que pasta ou armário poderíamos procurar. Ainda recentemente, quando precisámos pesquisar documentos oficiais, de há mais de 20 anos, para um livro – e perante o meu lamento da insuficiência dos materiais recolhidos -, foste tu que, por não seres nunca indiferente ao trabalho e sem que te pedisse, me disseste onde procurar.

“‘Vê aquele funcionário? (…) É um excelente funcionário. Contudo, se eu lhe perguntasse por que seu trabalho é necessário ou por que é feito dessa maneira e não de outra, ele seria incapaz de me responder. Nunca deve ter pensado nisso’. (…) Se os homens não tomam a iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão se o resultado de seu esforço resultar em benefício de todos? Por enquanto parece que os homens ainda precisam ser dirigidos.”*

O teu profissionalismo foi em benefício da Ordem. E por isso obrigada. Obrigada por nunca teres sido indiferente ao que era o interesse da instituição. A tua dedicação foi uma das razões da minha admiração por ti. Isso e seres capaz de saber de cor o nome de centenas e centenas de médicos. Os mesmos que, neste momento, já sabem exatamente quem és.

Rosinha, fiz um brinde, em tua memória, com a MJ. E, daqui a pouco, tenho de me ir despedir de ti. Vou (vamos) sentir a tua falta. Nomeadamente, nos muitos momentos em que eras sempre tu que estavas presente. Como nas manhãs, bem cedo, em que chegavas sempre a horas, e que, antes de entrarmos para os autocarros que nos levavam às assembleias de representantes, garantias que não nos esquecíamos de ninguém nem de nenhum documento.

Uma instituição sem pessoas é apenas um amontoado de tijolos, cimento e telhas. No dia 7 de abril de 2018 faleceu a Rosa Soares, dedicada funcionária da Ordem dos Médicos que viu crescer várias gerações de médicos, e a instituição ficou muito mais pobre. À família, a quem também se dedicou no equilíbrio difícil que nos é exigido pela velocidade dos tempos modernos e, por vezes, pelo excesso de trabalho, o nosso sentido lamento.

 *in Uma carta para Garcia

Texto e foto de: Paula Fortunato, diretora executiva da Revista da Ordem dos Médicos

 

“A Rosa não cabe numa frase ou num pequeno parágrafo”, dizia-me um dos ex-bastonários. Mas, numa frase, cabe um pouco do nosso sentimento. Estes são os testemunhos de alguns colegas

Por estes dias, lágrimas e riso misturam-se ao pensar em ti. A memória ainda te tem (e terá) muito viva, originando sorrisos num desfilar de momentos em que tu estás presente a conversar comigo sobre qualquer assunto de trabalho. No teu estilo único, às vezes pouco ortodoxo, mas sempre com o interesse da OM e dos médicos em primeiro lugar. Depois chega a racional consciência da tua ausência e as lágrimas, muitas vezes escondidas, misturam-se com o sorriso que tantas vezes nos provocaste. Obrigada, Rosa. – Patrícia Pessoa

Falar da Rosa Soares e não mencionar a Ordem dos Médicos, é como falar da OM e não mencionar a Rosa, impensável. Sentido de responsabilidade e devoção pela causa, como poucos conseguem. Fica para sempre na nossa história pessoal e profissional. Beijos e até sempre. – Maria João Barbosa

“A sua perseverança, dedicação, empenho sempre pautado pela ética, destacou-a como um exemplo de vida a seguir, inspirando-nos a todos. O companheirismo que partilhámos, nos bons e maus momentos, foi demasiado importante nas nossas vidas.

Resta-nos a recordação e o privilégio que tivemos de trabalhar com ela.” – Cristina Gomes, Maria do Céu e Corália Marques

​Para além de uma excelente Colega uma grande amiga e conselheira. Vamos sentir muito a tua falta. Obrigado por tudo. – Carlos Oliveira

Dos 35 anos de convivência profissional ficarão para sempre memorizados todos os momentos partilhados que te agradeço profundamente. Descansa em paz com o sentimento de dever cumprido. – Manuela Saraiva

Com aquela retemperadora gargalhada que brilha e aquece a alma, personificaste, para mim, o respeito, a lealdade e a ética no trabalho.  Na aprendizagem do dia-a-dia, quis sempre perceber o teu olhar atento e não me aquietei sem valorizar a grandeza do teu talento nato. Honraste-nos com a partilha do grande tesouro da Vida que, feito de afetos e conhecimento, nos torna agora guardiões do teu exemplo. – Paula Carmo

Estes 35 anos de convívio profissional são marcados pelo que sempre ajudaste quando te pedíamos. O trabalho, e a amizade, irão continuar no meu pensamento. – António Pinheiro

Recordo o primeiro dia na Ordem dos Médicos, há 29 anos, e o momento em que me apresentaram aos colegas, destacando-se uma Senhora, chamada Rosa, que começara como contínua e passara depois para o arquivo. Desde aí, para mim, o que ela pedia era prioritário. Recordo os dias em que tinha de ir para os jornais, já fora de horas, com mais um comunicado (“maldita ministra da Saúde”, pensava eu, mas sem que nenhum de nós se queixasse). Quando, finalmente, chegava à última redação, diziam-me: “telefonou uma colega sua chamada Rosa, a dizer que podia ir para casa, porque o Prof. MMM alterou o comunicado e só vai sair amanhã para a imprensa”. E, no dia seguinte, lá estávamos todos a horas na Ordem. Aquela Bandeira que a acompanhou na sua última morada diz tudo o que ela representa para mim e para esta Casa. Obrigado. – Paulo Vaz